CANÇÃO NA PLENITUDE…



Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)

O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.

Do livro “Secreta Mirada”, Editora Mandarim – São Paulo, 1997, pág. 151.Lya Luft

É MAIS DIFÍCIL FAXINAR A ALMA DO QUE A CASA!

O poema Cortar o Tempo, cuja autoria até hoje é discutida, singelamente profetiza

“Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança fazendo-a funcionar no limite da exaustão;

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez

Com outro número e outra vontade de acreditar que daqui adiante vai ser diferente…”

As festas de fim de ano no mundo ocidental, não somente em sentido religioso, representam o encerramento de um ciclo e o início de outro. A cada 365 dias as promessas feitas meses atrás nem são mais lembradas. Por outro lado há sempre quem esteja estabelecendo outra lista de resoluções para serem concretizadas ou descumpridas.

Muita gente prepara a casa para os festejos natalinos. Limpa armários, separa roupas, brinquedos e apetrechos para doação. Outros aproveitam para mudar os móveis de lugar, trocar  enfeites, almofadas, quadros e vasos fazendo com que os ambientes pareçam remodelados.  Outros ainda aproveitam para faxinar geral – do porão ao sótão, passando pelo jardim. Redecoram  e pintam a casa, renovam o lar. E quando da noite de Natal, o nascimento deste novo ambiente se faz notar.

Entretanto, neste tempo de renovação de valores, o importante seria mesmo faxinar a alma.

Limpar, trocar, remodelar, pintar, redecorar é extremamente positivo. O externo, todavia, muitas vezes tão bem cuidado, não reflete verdadeiramente o estado da alma. Casa linda, alma pesada. E esta renovação deve ser trabalhada internamente dentro de cada um de nós para que se dê o verdadeiro despertar.

Erradicar os maus pensamentos e as mágoas. Colocá-los em um lixo profundo onde não pudessem contaminar nada e nem ninguém.

Trocar comportamentos destrutivos por outros que façam aflorar criatividade, musicalidade, e prosperidade.

Remodelar as lembranças dolorosas, aceitando-as como desencadeadoras de aprendizados  e lições que, apesar de doloridas, ensinaram ou marcaram profundamente a história de cada um.

Pintar a própria existência com as cores desejadas e não com cores sugeridas ou forçadas por terceiros, por obrigação do meio social.

Plantar a semente do bem nos vasinhos da fala, da escuta e da visão. Arrancando dali as ervas daninhas da fofoca; do preconceito e do pré-julgamento.

Uma faxina bem feita necessita de produtos de limpeza eficientes. O  autoconhecimento é o mais poderoso de todos e precisa ser trabalhado continuamente. A faxina precisa de conservação para manter corpo-mente-coração limpos.

A casa nem sempre reflete a alma. Algumas vezes reflete o gosto, as condições financeiras  do dono,  mas não a alma.  O coração, as palavras e os olhos sim. E coração limpo e sereno é como um sol brilhante. Onde quer que chegue ilumina e desperta quem se encontra ao redor.

Alma lavada. Alma faxinada. Bondade. Perfeição. Luz. Com certeza é mais fácil faxinar a casa toda do que a própria alma. By Gicapinica

Fonte: https://gicapinica.wordpress.com/2016/12/19/e-mais-dificil-faxinar-a-alma-que-a-casa-toda/

RECEITA DE ANO NOVO.

Desejo a todos um Feliz Ano Novo. Que 2022 seja um ano cheio de coisas boas: muita paz, saúde, amor, fé e esperança. Texto simplesmente inspirador de Carlos Drummond de Andrade dando “ Receita de Ano Novo” (2008). Onde a simplicidade e a naturalidade faz tudo ser melhor. Leiam:

Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido), para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, mas com ele se come, se passeia, se ama, se compreende, se trabalha, você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, não precisa expedir nem receber mensagens (planta recebe mensagens? passa telegramas?)

Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta. Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumadas nem parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem e que seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações, liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre. Dentro de você 🥂. Feliz Ano Novo para todos os meus familiares e amigos…

QUASE…

Esta cronica de Sara Westphal me fez pensar na importancia de ter atitudes em nossa vida. Eu nunca quis ter uma vida sem graça, morna…. embora as vezes refletisse muito antes de tomar uma atitude, quando escolhia meu caminho… não olhava muito para traz. As poucas vezes que me senti meio travada… foram importantes para superar os desafios que tive. Grandes aprendizagens vem de dentro para fora!

“Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos “Bom dia”, quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até para ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio-termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.

Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.”

SAUDADE…

Refletindo sobre finitude!!! Adorei, o que a filha de Rubens Alves escreveu sobre sua saudade:

Hoje completamos sete anos do encantamento do meu pai. Tempo suficiente para a presença da ausência se instalar e para aquela dor dilacerante da partida dar espaço para uma saudade mansa e gostosa.
Pensei em sete coisas que aprendi com meu pai, como numa brincadeira, uma coisa para cada ano de saudade…

Aqui vai:
1 – A simplicidade é uma das coisas mais importantes a serem aprendidas para termos uma relação sábia com a vida. Mas ser simples não é fácil e não tem nada a ver com dinheiro… É uma conduta interna, de humano para humano, de humano para a vida.
2 – O tempo passa e escorre por entre nossos dedos. E raramente nos damos conta disso…
3 – Não temos missão nessa vida que não seja sermos nós mesmos e com isso sermos fiéis a nós mesmos. Nossa felicidade se pauta sobre a nossa verdade interna.
4 – Com o passar do tempo, a gente desaprende o encantamento natural que tínhamos quando crianças para com a vida. E é justamente ele que faz a vida valer a pena.
5 – O mais sensato é o equilíbrio entre o pensamento e a emoção; sem enaltecer um em detrimento do outro. A razão dá o saber e a emoção o sabor.
6 – Liberdade exige muita dedicação e coragem. Precisamos saber o que queremos e batalhar para gozar a liberdade de estar ou pensar sobre o desejado.
7 – Não importa tanto qual cainho escolhemos para nós, até porque raramente sabemos com clareza para onde queremos ir ou quais decisões devemos tomar. Por isso, o mais importante é que façamos nossas escolhas com amor…


Com carinho e MUITA saudade, Raquel Alves

A SABEDORIA DA VELHICE…

Nós, os novos, seremos velhos um dia. Essa é mesmo a melhor saída para a nossa vida, sinal de que atingimos uma sabedoria maior, prémio por termos alcançado o topo da hierarquia da existência. Não é o tempo que nos faz auferir esse estatuto, mas o tempo dá-nos mais tempo para fazermos alguma coisa com ele e assim aprender para saber mais.

Ninguém sabe mais do que um velho. Ao lado do seu avô, um doutorado é um ignorante e, se afirmar saber mais do que aquelas duas gerações de diferença, é um ignorante imbecil. É o que não falta entre nós, os novos. Dá-se mais valor ao que se aprende nas faculdades do que ao que se aprende na vida, dá-se mais valor à teoria do que à prática. Coitados de nós. E depois não nos lembramos da idade, achamos que nos passa ao lado e por isso não reconhecemos aos velhos o estatuto de sábios e o respeito que lhes é devido. Somos imbecis. A maior parte de nós é tonta. Só isso justifica o abandono. Um velho é um mapa de conhecimento, tem dentro dele muitas estradas principais, muitas vias secundárias e muitos atalhos, muitos becos sem saída, muitas praias, muitos desfiladeiros, muito amor e severas tempestades.

Gustavo Santos, (in ‘O Caminho’ – Portugal, 27/ Mai/ 1977 Life Coach)

NÃO NASCI ONTEM. NASCI NO SÉCULO PASSADO.

Não nasci ontem. Nasci no século passado. Mais precisamente no ano que não terminou: 1968

Posso te garantir: na “minha época” não havia computador pessoal. O “Apple I” foi criado em 1976.

E vou te contar mais: na “minha época” existia um aparelho chamado telefone. Que virou “telefone fixo” e depois… simplesmente sumiu com o surgimento do primeiro celular. Isto ocorreu em 1983, quando o Motorola DynaTAC 8000X passou a ser comercializado. Ele foi criado por Martin Cooper, um engenheiro eletrotécnico norte-americano.

Na “minha época” também não havia a internet como a conhecemos hoje: o primeiro site do mundo foi lançado em 1991 por Tim Berners-Lee, físico do Centro Europeu de Pesquisa Nuclear, responsável por inventar a World Wide Web (WWW).

Já o Google, também não é da “minha época”. Ele foi ao ar pela primeira vez em 1996. Inicialmente, apenas nos servidores da Universidade de Stanford.

Sim, houve um tempo em que eu vivia sem tudo isto.

Em compensação, vivenciei a queda do Muro de Berlim, o término da Guerra Fria, o fim do apartheid na África do Sul e acompanhei os atentados terroristas de 11 de setembro.

Na “minha época”, a inflação (IPCA/IBGE) do Brasil atingiu 2.477%/ano (1993).

É inacreditável, mas foram 7 tentativas de estabilização econômica apenas entre 1986 e 1993: Cruzado I e II (1986), Bresser (1987), Verão (1988), Collor 1 (1990) e II (1991) e Plano Real (1993).

Enfrentei o congelamento de salários e de preços. E o meu dinheiro foi confiscado de um dia para o outro da minha conta corrente. Conheci várias moedas: Cruzado, Cruzado Novo, Cruzeiro, Cruzeiro Real e Real.

Era uma época em que empresas globais deixavam seu nome na história. Lembra-se da Kodak, do Blockbuster e da Polaroid? Pois é, faliram.

No Brasil, tínhamos a Rede Manchete (eu trabalhei lá!), a Varig, a Vasp, os bancos Nacional e Bamerindus, as lojas Mappin, Arapuã, Sears e Mesbla e os refrescantes sorvetes da Yopa. Todos derreteram…

Naquela época, não falávamos de adaptabilidade. Mas quem não inovou, quebrou. Não havia o termo “aprendizado contínuo”. Mas quem não se reinventou, desapareceu.

Como dizia Aldous Huxley, autor de “O Admirável Mundo Novo”,

“Experiência não é o que te acontece; é o que você faz. com o que te acontece”. Nós, os 50+,

Erramos e aprendemos. Vivemos e sobrevivemos.

Tivemos filhos. O meu casal de gêmeos chegou no dia 22/11/00.

Vimos o conhecimento amadurecer e a experiência chegar.

já afirmava Albert Camus, “Prêmio Nobel de Literatura”:

“Não se pode criar experiência. É preciso passar por ela”, E agora?

Percebi que a “minha época” também é agora: quero continuar produzindo, criando, contribuindo e fazendo acontecer.

Não nasci ontem, mas aprendi a substituir…

A máquina de escrever pelo laptop.

O telefone fixo pelo Whatsapp.

O rádio pelo podcast.

A fita cassete pelo Spotify.

A fita de vídeo pelo streaming.

A TV pelo YouTube.

O livro pelo e-book.

Os anúncios impressos pelo e-commerce.

Os classificados pelo Linkedin (ops, me tornei “Top Voice”!).

As cartas e o fac-símile pelas mensagens virtuais.

Os congressos presenciais pelas lives.

A enciclopédia pelo Google Acadêmico.

O texto pelo post.

O conteúdo pelo… ah, este sempre será um diferencial!

Fui apresentado a terminologias como: algoritmo, startup, call, hackathon, webinar, spam, big data, emoji, backup, pixel, upload, hashtag, inbox e… cringe!

Descobri que “estar na nuvem” não significa apenas sonhar.

E que “viral” é mais do que um termo da medicina, ele também se aplica no marketing.

Passei a ouvir frases como:

“Você está me ouvindo?”, “Você está me vendo?”

“Na minha época”, estas questões eram restritas aos relacionamentos conjugais ou a consultórios psicológicos…

Hoje, estas são perguntas frequentes no mundo corporativo.

Dentro e fora da telinha, independente de onde cada um está.

Mas, enquanto alguns se restringem ao enquadramento padronizado, e ficam à mercê da imprevisível oscilação, outros buscam atualizar o hard e o soft, tornar a comunicação mais segura e implementar uma forte rede de conexões.

Lewis Carroll nos ensina:

“Se você não sabe onde quer ir, qualquer caminho serve”.

O mapa impresso e estático, “da minha época”, cedeu lugar ao palpiteiro GPS; mas sou eu quem continuo tendo a responsabilidade de traçar o caminho que quero seguir.

Posso (e devo) alterar a rota sempre que julgar conveniente.

Não nasci ontem.

Quero continuar me reinventando o tempo todo.

Quero continuar aprendendo e me adaptando.

Quero continuar sendo visto e ouvido.

Quero produzir erros novos e evitar os já cometidos.

Quero ter uma vida saudável, equilibrada e com propósito.

Quero comemorar minhas “Bodas de ouro” e curtir os meus gêmeos, que vão completar 21 anos no dia 22/11/2021.

Ontem, presenciei fatos marcantes da história.

Hoje, troco conhecimentos e experiências com as minhas eternas “crianças”.

Amanhã, espero que se orgulhem do legado que estamos construindo juntos.

Nasci no século passado, mas agora também é a “minha época”. Vivo intensamente cada ano. que também não terminou.

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Achei muito interessante este texto publicado na coluna de Mauro Wainstock na revista EXAME/Bússola

Mauro Wainstock possui 30 anos de experiência em Comunicação. É Linkedin Top Voice, colunista da revista EXAME/Bússola, atua como mentor de executivos sobre marca profissional e é sócio-fundador do HUB 40+, consultoria empresarial focada no público acima dos 40 anos.

ENVELHECER E O TEMPO…

Envelhecer é o único meio de viver muito tempo.

A idade madura é aquela na qual ainda se é jovem, porém com muito mais esforço.

O que mais me atormenta em relação às tolices de minha juventude não é havê-las cometido… e sim não poder voltar a cometê-las.

Envelhecer é passar da paixão para a compaixão.

Muitas pessoas não chegam aos oitenta porque perdem muito tempo tentando ficar nos quarenta.

Aos vinte anos reina o desejo, aos trinta reina a razão, aos quarenta o juízo.

O que não é belo aos vinte, forte aos trinta, rico aos quarenta, nem sábio aos cinquenta, nunca será nem belo, nem forte, nem rico, nem sábio…

Quando se passa dos sessenta, são poucas as coisas que nos parecem absurdas.

Os jovens pensam que os velhos são bobos; os velhos sabem que os jovens o são.

A maturidade do homem é voltar a encontrar a serenidade como aquela que se usufruía quando se era menino.

Nada passa mais depressa que os anos.

Quando era jovem dizia:

“Verás quando tiver cinquenta anos”.

Tenho cinquenta anos e não estou vendo nada.

Nos olhos dos jovens arde a chama, nos olhos dos velhos brilha a luz.

A iniciativa da juventude vale tanto a experiência dos velhos.

Sempre há um menino em todos os homens.

A cada idade lhe cai bem uma conduta diferente.

Os jovens andam em grupo, os adultos em pares e os velhos andam sós.

Feliz é quem foi jovem em sua juventude e feliz é quem foi sábio em sua velhice.

Todos desejamos chegar à velhice e todos negamos que tenhamos chegado.

Não entendo isso dos anos: que, todavia, é bom vivê-los, mas não tê-los.

By Albert Camus. Gostei muito…

CONTAMINADOS

Heloísa poetisa me fez refletir sobre tudo que estamos passando.

No ano de 2020 o mundo foi acometido por uma grave pandemia viral. As famílias ficaram mais unidas e aprenderam a se amarem e perceberam enfim a importância de um abraço, principalmente entre não familiares. Aprenderam dividir o pouco, o muito, a regrar, brincar, ouvir, a serem solidários ate com desconhecidos tornando-se mais humildes uns para com os outros. As datas festivas e as reuniões nos finais de semana com amigos ou familiares provaram o quanto essas reuniões fazem falta. Aprenderam o que é saudade. Aprenderam a usar um outro tipo de vestimenta; mascara sobre nariz e boca e luvas nas mãos.

Sentiram a perda de seus entes queridos e de amigos. Não foi morte súbita ou por bala perdida ou por perder lentamente por uma doença terminal e nem porque já eram idosos. Foi doença seguida de morte vindo de uma contaminação, tragava em poucos dias mesmo com todos os esforços dos Profissionais de saúde, Hospitais de campanha, distribuição gratuita de mascaras e testes feitos em todos os Postos de saúde e Hospitais. Contaminava crianças, adultos, idosos, independente da classe social, credo religioso, poder aquisitivo, nação ou gênero sexual.

As mamães de 2020 abraçavam seus bebezinhos. Mais muitas perderam suas vidas ou maridos e tantos familiares sem ter a oportunidade de abraçá-los naquele momento e ate para uma ultima despedida. Muitas crianças tornaram-se órfãs e os menorzinhos não entendiam por que só podiam ver o vôvô e a vóvó por vídeo. Pela maior permanência em casa de adultos sem comparecerem ao trabalho semanal, de crianças sem irem a Escola secular e sem atividades físicas ou recreativas com amigos; a obesidade, depressão, divórcios tiveram aumento considerável. Bem como a agressão as mulheres e abuso sexual de crianças e adolescentes.

Os cachorros de rua perambulavam desnorteados. Os restaurantes não abriram nos finais de semana os bares não funcionaram e as ruas ficaram vazias. A pandemia fechou as lojas por vários períodos, ocasionando demissões em massa e ao reabrirem suas portas, muitos enceram suas atividades comerciais sem condição financeira de prosseguir. A rede de entrega a domicilio, contratação de motoboy e o comercio virtual cresceu demasiadamente criando novas fontes de emprego.

Enquanto que as aulas seculares passaram a ser via redes sociais criando muita polemica entre as diferenças do poder aquisitivo das famílias das crianças ate mesmo da rede de ensino Particular; por outro lado serviram de sociabilidade, entretenimento e acessibilidade aos que não podiam sair de casa. Abrindo um leque de sugestão e interesse de gêneros como concertos musicais, sarais culturais, shows, reuniões, lives entre outros.

Todas as competições esportivas ficaram paralisadas. Ocasionando grandes prejuízos quando retornaram a competir principalmente sem a presença dos torcedores.

Casamentos foram só nos cartórios respeitando todos os cuidados de prevenção. Viagens e festas não aconteceram bem como datas comemorativas culturais, cívicas, festa de 15 anos, formatura e nem corpo para o velório… Não sabemos quando tudo isto vai acabar. Mudanças ocorrem todos os dias. Com as vacinas chegando muitas coisas melhoraram e teve uma luz no fim do túnel. Cada país está numa fase. Um dia este novo mundo surgirá onde muita coisa pode voltar enquanto outras serão muito diferentes.

A ARTE DE SER AVÓ… NETOS!

Meu neto João Pedro fez 6 anos dia 1/11… Parabéns meu amor, estou de coração e mente aí 🎂 com você. Sim, sou uma avó coruja assumida. Sempre gosto de ler esta crônica de Rachel de Queiroz… sobre avós e netos. Tem muito de mim nesta crônica. Leia:

Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu. É, como dizem os ingleses, um ato de Deus. Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio, sem as dores da maternidade. E não se trata de um filho apenas suposto, como o filho adotado: o neto é realmente o sangue do seu sangue, filho de filho, mais filho que o filho mesmo…

Quarenta anos, quarenta e cinco… Você sente, obscuramente, nos seus ossos, que o tempo passou mais depressa do que esperava. Não lhe incomoda envelhecer, é claro. A velhice tem as suas alegrias, as suas compensações – todos dizem isso embora você, pessoalmente, ainda não as tenha descoberto – mas acredita.

Todavia, também obscuramente, também sentida nos seus ossos, às vezes lhe dá aquela nostalgia da mocidade. Não de amores nem de paixões: a doçura da meia-idade não lhe exige essas efervescências. A saudade é de alguma coisa que você tinha e lhe fugiu sutilmente junto com a mocidade. Bracinhos de criança no seu pescoço. Choro de criança. O tumulto da presença infantil ao seu redor. Meu Deus, para onde foram as suas crianças? Naqueles adultos cheios de problemas que hoje são os filhos, que têm sogro e sogra, cônjuge, emprego, apartamento a prestações, você não encontra de modo nenhum as suas crianças perdidas. São homens e mulheres – não são mais aqueles que você recorda.

E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino. Completamente grátis – nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha da sua raça, da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um menino seu que lhe é “devolvido”. E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito de o amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo e decepção se você não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor recalcado que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.

Sim, tenho certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice. São amores novos, profundos e felizes que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis. Aliás, desconfio muito de que netos são melhores que namorados, pois que as violências da mocidade produzem mais lágrimas do que enlevos. Se o Doutor Fausto fosse avó, trocaria calmamente dez Margaridas por um neto…

No entanto – no entanto! – nem tudo são flores no caminho da avó. Há, acima de tudo, o entrave maior, a grande rival: a mãe. Não importa que ela, em si, seja sua filha. Não deixa por isso de ser a mãe do garoto. Não importa que ela, hipocritamente, ensine o menino a lhe dar beijos e a lhe chamar de “vovozinha”, e lhe conte que de noite, às vezes, ele de repente acorda e pergunta por você. São lisonjas, nada mais. No fundo ela é rival mesmo. Rigorosamente, nas suas posições respectivas, a mãe e a avó representam, em relação ao neto, papéis muito semelhantes ao da esposa e da amante dos triângulos conjugais. A mãe tem todas as vantagens da domesticidade e da presença constante. Dorme com ele, dá-lhe de comer, dá-lhe banho, veste-o. Embala-o de noite. Contra si tem a fadiga da rotina, a obrigação de educar e o ônus de castigar.



Já a avó, não tem direitos legais, mas oferece a sedução do romance e do imprevisto. Mora em outra casa. Traz presentes. Faz coisas não programadas. Leva a passear, “não ralha nunca”. Deixa lambuzar de pirulitos. Não tem a menor pretensão pedagógica. É a confidente das horas de ressentimento, o último recurso nos momentos de opressão, a secreta aliada nas crises de rebeldia. Uma noite passada em sua casa é uma deliciosa fuga à rotina, tem todos os encantos de uma aventura. Lá não há linha divisória entre o proibido e o permitido, antes uma maravilhosa subversão da disciplina. Dormir sem lavar as mãos, recusar a sopa e comer roquetes, tomar café – café! -, mexer no armário da louça, fazer trem com as cadeiras da sala, destruir revistas, derramar a água do gato, acender e apagar a luz elétrica mil vezes se quiser – e até fingir que está discando o telefone. Riscar a parede com o lápis dizendo que foi sem querer – e ser acreditado! Fazer má-criação aos gritos e, em vez de apanhar, ir para os braços da avó, e de lá escutar os debates sobre os perigos e os erros da educação moderna…

Sabe-se que, no reino dos céus, o cristão defunto desfruta os mais requintados prazeres da alma. Porém, esses prazeres não estarão muito acima da alegria de sair de mãos dadas com o seu neto, numa manhã de sol. E olhe que aqui embaixo você ainda tem o direito de sentir orgulho, que aos bem-aventurados será defeso. Meu Deus, o olhar das outras avós, com os seus filhotes magricelas ou obesos, a morrerem de inveja do seu maravilhoso neto!

E quando você vai embalar o menino e ele, tonto de sono, abre um olho, lhe reconhece, sorri e diz: “Vó!”, seu coração estala de felicidade, como pão ao forno.

E o misterioso entendimento que há entre avó e neto, na hora em que a mãe o castiga, e ele olha para você, sabendo que se você não ousa intervir abertamente, pelo menos lhe dá sua incondicional cumplicidade…

Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e neto: o bibelô de estimação que se quebrou porque o menininho – involuntariamente! – bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beiço pronto para o choro; e depois o sorriso malandro e aliviado porque “ninguém” se zangou, o culpado foi a bola mesma, não foi, Vó? Era um simples boneco que custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague…

(O brasileiro perplexo, 1964.) – Rachel de Queiroz