“Aprendi que todas às vezes que aceito aquilo que não posso controlar, cresço um pouco mais. Aprendi que as coisas mais incríveis da vida, acontecem fora da zona de conforto. Aprendi que antes de desejar acrescentar dias a minha vida, preciso começar a acrescentar vida, aos meus dias. É a qualidade que faz a diferença, nunca a quantidade. Aprendi que fico mais bonita, quando me escolho, me aceito, me amo, e me visto de mim. Aprendi que a melhor proteção contra energias ruins, é cuidar, para que a minha energia seja sempre boa. Aprendi que Deus não castiga, não pune, não condena, ele apenas nos protege, e nos prepara para aquilo que pedimos, mas não temos paciência para saber a hora certa de receber. Aprendi que melhor do que tentar ver o lado bom da vida, é tentar ser o lado bom das coisas!” Wandy Luz
Queria compartilhar com vocês este lindo texto de minha amiga Suely Tonarque,
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?
Retrato – Cecília Meireles (livro “Viagem”, 1939)
Janeiro 2025: com minha imagem refletida no espelho, me dou conta do meu envelhecimento – caminho de Chronos; não fico assustada e tampouco inconformada – caminho de Kairós. Que bom que ainda estou viva e com muitas histórias para contar, desejos a serem realizados e com dois ouvidos para a escuta de casos, estórias, histórias, apesar de me dar conta de que, aos poucos, inicio o processo de perda da audição física. Isso não me abala: estou presente nos encontros com amigos, grupos de estudo, minha família e cheia de energia para a Vida. Claro, cuidando da saúde física, psíquica e, principalmente, do Tempo Chronos – o senhor do tempo das horas, regido pelo relógio. Tenho 73 anos e 6 meses.
Na mitologia grega, Chronos é o deus do Tempo, o medidor do tempo físico. Por sua vez, Kairós – palavra de origem grega – é o tempo que não pode ser medido, cronometrado, representa acontecimento que não tem hora marcada, surpresas do cotidiano.
Assim, o tempo Kairós nos convida a aproveitar a vida em outro compasso: mais leveza e alegria, apesar da inevitável existência das tristezas.
No belo poema “Retrato”, Cecília Meireles surpreende a si mesma com o “olhar de Chronos” sobre o seu envelhecimento, até então analisado com o olhar de Kairós – seu eu-lírico – o que a faz admitir que houve uma mudança, embora não reconheça o momento do ocorrido. E eu me identifico com essa representação do envelhecimento: ele vai surgindo e não me deixa rastros de onde exatamente reconheço minha imagem no espelho.
Mas, eu me reconheço, sim, nas minhas histórias e experiências vividas; encontro-me inteira no tempo quando me dou conta dele, mesmo com olhos vazios; estou com luz, mesmo ao perceber, ao sentir e pensar sobre a riqueza da vida, do existir com o outro e o vigor do pulsar das histórias únicas. Viver é só ida, não tem volta para resgatar o tempo não vivido.
Temos 11 meses para viver 2025 e não abrir mão de novos caminhos em busca do tempo que temos, mesmo com o nosso rosto marcado, nosso corpo transformado pelo envelhecimento – sem botox, plásticas, injeções e químicas que nos afastam da nossa identidade, ou melhor, de nós mesmas.
(*) Suely Tonarque é psicóloga, gerontóloga e especialista em moda no envelhecer
Talvez a gente aprenda, afinal, a demorar a vida mais vezes no que faz coração ser sorriso. A abraçar mais lentamente toda vez que é possível. A encher de beijinhos quem nos provoca ternura. A sair mais frequentemente para passear onde tem flor.
Talvez a gente aprenda, afinal, que precisa de bem menos do que imaginava. Que as verdadeiras urgências são vidas. Que a prioridade é a saúde. Que há variados jeitos de se mostrar presente. Que a gente tem que se cuidar pra cuidar. Que aquela tal pressa era pra quê mesmo? Que há uma linguagem que só os olhos conhecem.
Talvez a gente aprenda, afinal, a se interessar com mais bondade pelo bem-estar dos outros seres. Que estamos todos juntos mesmo na humanidade. Que há vários modos de ajudar mesmo sendo também vulnerável. Que o nosso dom é serviço. Que é possível viver fora do automatismo.
Talvez a gente aprenda, ao final, a ser do nosso jeito de novo.
Adoro compartilhar crônicas que me encantam e me fazem bem. Está da Adélia Prado eu adoro e me representa muito. Leiam:
Todos vamos envelhecer… Querendo ou não, iremos todos envelhecer. As pernas irão pesar, a coluna doer, o colesterol aumentar. A imagem no espelho irá alterar-se gradualmente e perderemos estatura, lábios e cabelos. A boa notícia é que a alma pode permanecer com o humor dos dez, a força dos vinte e o erotismo dos trinta anos.
O segredo não é reformar por fora. É, acima de tudo, renovar a mobília interior: tirar o pó, dar brilho, trocar os estofos, abrir as janelas, arejar o ambiente. Porque o tempo, invariavelmente, irá corroer o exterior. E, quando ocorrer, o alicerce precisa estar forte para suportar. Erótica é a alma que se diverte, que se perdoa, que ri de si mesma e faz as pazes com sua história.
Que usa a espontaneidade para ser sensual, que se despe de preconceitos, intolerâncias, desafetos. Erótica é a alma que aceita a passagem do tempo com leveza e conserva o bom humor apesar dos vincos em torno dos olhos e o código de barras acima dos lábios. Erótica é a alma que não esconde seus defeitos, que não se culpa pela passagem do tempo.
Erótica é an alma que aceita suas dores, atravessa seu deserto e ama sem pudores. Lembre-se: nenhum bisturi vai tratar do buraco de uma alma negligenciada anos a fio.
Que a vida te traga a idade, mas nunca o desencanto. Que os anos passem, mas que nunca te habitues. Sê como o rio, que flui em direção a algo maior. Que o teu coração cresça até ao fim e que nele caiba o que não é possível medir: o amor, o sonho e a poesia. Que o tempo te enrugue a pele, mas nunca a alma. A alma quer-se lisa. Espelho e reflexo de luz. Que te ames no amor que dás e recebes. Que a distância nunca te impeça de estar perto e que as vidas de que esta é chegada sejam a memória do que te ensinaram. Nem tudo está escrito. Há coisas que és tu que tens de escrever.
Gostei deste texto de Elisabete Bárbara, me identifiquei bastante.
“Na minha idade, não tenho mais tempo, não tenho mais paciência, não tenho mais vontade de entender tudo e todos. Já não procuro o que diz aos outros, procuro o que me agrada. Já não tenho tempo nem vontade de sorrisos falsos e cortesias ineficazes. Já não tenho vontade de procurar quem não me procura, nem de fazer coisas que não quero. Na minha idade você tem aquela parte de sabedoria e despreocupação que faz com que em vez de dizer “não se preocupe, não importa” você diga: “Você sabe o que eu digo? Eles que se danem!” E é verdade que é rude, mas você se sente tão bem e tão libertada em dizê-lo, porque na minha idade tenho muitos “danem-se” acumulados e já não tenho paciência.”
BATOM o emocionante filme do ator, diretor e roteirista Fernando Possani é uma obra linda e sensível, com um jeito lúdico de mostrar o Alzheimer com Walderez de Barros e Maju Lima – @walderezdebarros @majulima08 @fernandopossani_
Perto de fazer 70 anos, me emocionei e me fez refletir sobre o nosso envelhecimento e a importância dos cuidados com a saúde mental. A mente é intrigante, fértil para doenças de difíceis diagnósticos. Todo cuidado é necessário e merece a nossa atenção.
Acredito que a minha geração, que tem mudado muita coisa e aberto novos caminhos para as outras gerações é percurssora nesta questão. Temos hoje a preocupação em planejar “como gostaríamos de envelhecer daqui a 10/15/20 anos”… em muitos casos procurando soluções e escolhendo as melhores formas de “como e onde” queremos estar.
Somos conscientes de que muitos filhos atualmente, com a vida tão frenética, corrida e muitas vezes a distância global, não conseguirão cuidar de nós assim como fizemos com nossos pais e/ ou como gostariam.
Me lembrei do livro “Eu me lembro” de Selton Mello: “A memória é como um filme em que somos tanto os atores quanto os espectadores. Cada cena, cada lembrança, é uma parte de nós que nunca se apaga”.
Há um silêncio que chega com os anos, e ele não é feito apenas da ausência de ruídos, mas da transição suave entre o que éramos e o que nos tornamos. Aos 60, você começa a sentir a sutileza do distanciamento. A sala que antes pulsava com suas ideias agora parece cheia de vozes que não pedem mais sua opinião. Não é uma rejeição, é o ritmo da vida. É quando aprendemos que nossa contribuição não está no presente imediato, mas nos rastros que deixamos nos corações e mentes ao longo do caminho.
Aos 65, você percebe que o mundo corporativo, outrora tão vital, é um fluxo incessante. Ele segue, indiferente ao que você fez ou deixou de fazer. Não é uma derrota, é a libertação. Esse é o momento de olhar para si mesmo, despir-se do ego e vestir a serenidade. Não se trata mais de provar, mas de ensinar, de compartilhar, de ser mentor. A verdadeira realização não é a que se exibe, mas a que inspira.
Aos 70, a sociedade parece lhe esquecer, mas será mesmo? Talvez seja apenas um convite para reavaliar o que realmente importa. Os jovens não o reconhecerão pelo que você foi, e isso é uma bênção disfarçada: você pode agora ser apenas quem você é. Sem máscaras, sem títulos, apenas a essência. Os velhos amigos, aqueles que não perguntam “quem você era”, mas “como você está”, tornam-se joias preciosas, diamantes que brilham no crepúsculo da vida.
E então, aos 80 ou 90, é a família que, na sua correria, se afasta um pouco mais. Mas é aí que a sabedoria nos abraça com força. Entendemos que amor não é posse; é liberdade. Seus filhos, seus netos, seguem suas vidas, como você seguiu a sua. A distância física não diminui o afeto, mas ensina que o amor verdadeiro é generoso, não exigente.
Quando a Terra finalmente chamar por você, não há motivo para medo. É a última dança de um ciclo natural, o encerramento de um capítulo escrito com suor, lágrimas, risos e memórias. Mas o que fica, o que realmente nunca será eliminado, são as marcas que deixamos nas almas que tocamos.
Portanto, enquanto há fôlego, energia, enquanto o coração bate firme, viva intensamente. Abrace os encontros, ria alto, desfrute os prazeres simples e complexos da vida. Cultive suas amizades como quem cuida de um jardim. Porque, no final, o que resta não são as conquistas, nem os títulos, nem os aplausos. O que resta são os laços, os momentos partilhados, a luz que espalhamos.
Seja luz, seja presença, e você será eterno.
Dedico a todos que entendem que o tempo não apaga, mas apenas transforma.
E um dia você percebe, que as amigas estão indo embora. Que o vento não é o mesmo que o da infância. Que nos emocionam com outras coisas, onde a lágrima vira olhar. Que os amores morrem, que os invernos pesam mais que as primaveras. Que sempre voltamos ao ninho, e que as palavras perdem um pouco de irreverência. Que há abraços que curam, e distâncias que quebram. Que as feridas raramente fecham, e que a chuva também encanta. Que a nossa história tem outro lado, aquele que não olhamos. Que as pessoas morrem, mas não percebemos até acontecer. Que o tempo passa e não volta, que viajar faz parte do caminho. Que sua melhor música sempre será a mesma porque ambos se escolheram. Que existem erros que salvam, porque nós aprendemos. Que nunca mais seremos crianças, e que sonhar não é proibido.
E um dia você percebe que não está ficando velha, está mais viva do que antes.