A gente vive certo porque errou um dia. E silencia quando entende que todas palavras foram ditas. Porque de vez em quando, aquilo que conserta é aquilo que cala ou ausenta. O nada que diz tudo. Quando o verbo é equívoco, o silêncio é corretivo.
Entre a infância e a velhice há um instante chamado vida…
Muitas vezes nos esquecemos de viver o presente, deixando passar grande parte da vida.
Quando menos esperar, os momentos podem desaparecer, aquela presença importante pode não fazer mais parte da sua rotina, e o sentimento de desperdiçar o tempo passa a ser constante.
No frenesi dos hábitos de vida atuais, muitas são as pessoas que acabam se perdendo em seus instantes, invertendo valores. Com o mundo cada vez mais conectado, a sensação de urgência foi modificada completamente, fazendo com que passemos grande parte dos nossos dias na frente de pequenas e luminosas telas.
Enquanto rolamos o feed de notícias, passamos a remoer o passado e imaginar o futuro – não que isso não sejam comportamentos normais e aceitáveis, mas fazemos com tanta frequência que acabamos esquecendo de viver o presente. Deixamos minutos ou até mesmo horas preciosas do nosso dia simplesmente se esvaírem pelos nossos dedos, perdendo o efêmero sopro de vida que temos.
Quando somos crianças, sabemos exatamente como aproveitar o momento, e por mais que sonhos e a imaginação façam parte da realidade, sempre são dosadas em quantidades aceitáveis. Quando nos tornamos jovens, ao invés de apreciarmos uma das melhores e mais vigorosas fases das nossas vidas, acabamos presos em uma espécie de “limbo temporal”, em que passamos boa parte do tempo refletindo sobre o que poderíamos ter feito de diferente no passado e conjecturando o momento futuro.
Nunca podemos nos esquecer que são os instantes que fazem com que nossas vidas sejam verdadeiramente especiais, a troca de olhares e de experiências com os outros. O prazer de evoluir como ser humano, de conhecer novos lugares, de descobrir hobbies, de aprender novos idiomas, de crescer profissionalmente. Nada disso se faz preso no passado ou no futuro.
Ainda que nossas lembranças e nossos planejamentos sejam de suma importância, não é neles que devemos passar boa parte do nosso dia. A memória é importante para que realmente aprendamos com nossos erros; assim como a prospecção nos garante certo tipo de controle de nossas vidas. Mas nem um e nem outro podem ser modificados no presente momento.
O que mais vale é ter sabedoria o suficiente para amadurecer e planejar, ao mesmo tempo em que momentos verdadeiros são usufruídos com as pessoas que amamos. Porque é justamente essa passagem pela vida que torna cada pequena fração de segundos tão especial, e não o constante planejamento ou o constante arrependimento.
Se as coisas não saíram como queria, aprenda a se perdoar, porque o perdão não é algo que devemos dar apenas aos outros, mas também a nós mesmos. Aprenda a valorizar sua história, suas marcas de expressão, suas cicatrizes e suas rugas, cada pequena inscrição em seu corpo é um sinal da passagem do tempo e do acúmulo de sabedoria.
Seja bondoso com tudo aquilo que você se tornou, ainda que esteja distante do que tenha sonhado, porque esse corpo e essa existência são únicos. Não importa qual seja sua idade ou sua condição, cerque-se de pessoas e coisas que façam com que se sinta bem, porque a vida é curta demais para perdermos tempo tentando agradar quem mal conhecemos.
Suas origens e raízes precisam ser reconhecidas, valorizadas e enaltecidas, porque foram elas – em grande parte – que te transformaram no que é hoje. A genética é importante, assim como a presença dos nossos familiares, que estão sempre dispostos a nos ajudar em nossos processos de evolução pessoal. As pessoas valem mais que as coisas, e nunca podemos nos esquecer disso.
Pode ser que esses pensamentos só comecem a surgir em sua trajetória quando adquirir certo tipo de maturidade, ou essa busca pessoal pela completa evolução acabe provocando reflexões desse âmbito. Mas isso nunca deve ser visto como um problema, porque somos incomparáveis, somos únicos e cada um vai passar pela vida da forma e no tempo próprios.
Aprenda a viver seus dias de maneira regrada, em equilíbrio. Por mais que alguns excessos sejam necessários para o crescimento pessoal, é a busca pelo centro que nos faz melhores e mais capazes. A beleza da vida está em apreciar seus pequenos detalhes, ao lado de pessoas que nos querem bem, e que têm apreço pela natureza e pelos outros. Agradeça sua existência e não deixe o presente para depois.
Deseje saúde, mas não fique refém da musculatura estirada e hipertrofiada. Deseje liberdade, mas não imagine que ela está no fim de uma estrada íngreme e cheia de curvas. Tenha fé e respeite o sagrado que há em você, mas não julgue nem discrimine outras formas de espiritualidade. Estude, aprenda, pratique, mas não se fixe num boletim repleto de notas máximas. Deseje um bom emprego, com um salário digno, mas não abra mão dos seus ganhos pessoais em função dos rendimentos profissionais. Não seja avarento, consuma com moderação e jamais desperdice. Ame e permita ser amado por alguém, mas não espere ser retribuído na mesma proporção ou com os mesmos gestos. Tolere as diferenças e tenha paciência com as demoras.
Todo mundo sabe que não adianta “chorar sobre o leite derramado”, e que “vão-se os anéis, mas ficam-se os dedos…”, mas mesmo assim não é simples aceitar que coisas, pessoas, relacionamentos, histórias, lugares, momentos…ou o que quer que seja, se vá.
A gente teima em se fixar no que passou, no buraco que ficou, no vazio que deixou, na parte de nós que ainda está naquele lugar que não existe mais.
Tanta louça brilhando na cristaleira e só queremos juntar os cacos daquela que espatifou…
Algumas coisas são inexplicáveis pra quem está de fora. Existem códigos secretos que só pertencem aos que partilharam a mesma mesa, o mesmo quarto, as mesmas brincadeiras, os mesmos pais. Talvez cumplicidade e camaradagem sejam as palavras certas pra definir esse tipo de amor, que começa com um “não me entrega que eu também não te entrego”, e segue vida afora compreendendo os traumas ocultos, as dores disfarçadas, a raiva acumulada, a alegria infantil, a inércia justificada. Mesmo longe, as mãos se reconhecem e se apoiam. Mesmo sem palavras, o entendimento é real. E no fim das contas, é aquele olhar cúmplice (“não me dedura por favor…”) que nos levanta e aquece. É aquele olhar que justifica e valida a beleza da vida, do mundo, das pessoas. E, de alguma forma que não sei dizer, traz alívio e paz.
Gosto de gente sem agrotóxico. Que não tem vergonha de sua casca “mais ou menos” e se perdoa pelas pragas. Que não tem medo de expôr suas fragilidades do mesmo modo que se vangloria de suas virtudes.
Gente que não se infla para parecer maior do que é. Gente que se humaniza e se aproxima de mim.
Que não faz alarde de sua felicidade, mas valoriza o que vale a pena _ como a sombra de um Jatobá…
“As mulheres costumam fazer muitas coisas juntas… Não é raro vê-las em pares ou em grupo no cinema…fazendo compras… viajando… olhando vitrines… andando no parque…indo a shows… a exposições… almoçando… e tudo isso sem parar de conversar (mulher fala, não?!😅)…
Romances… relacionamentos… rompimentos… perdas… filhos… profissão… roupas… menstruação… tpm… menopausa… exercícios… sexo etc… assunto é que não falta… Uma grande amiga minha chama de “sair para mulherar” essas tantas atividades que fazemos juntas enquanto… ao mesmo tempo… vamos falando da vida…
As mulheres trocam confidências… expõem aquilo que vivem e seus conflitos… bordam e tricotam (literal e metaforicamente)…brigam… acompanham e cuidam umas das outras… numa troca recíproca e coletiva… Nas muitas atividades em companhia das amigas… aparentemente tão triviais… fios da subjetividade de cada uma de nós se entretecem e nos ajudam a virar mulher… a ser mãe… a ser amiga… a casar…a ter filhos… a descasar… a trabalhar… a enfrentar a saída dos filhos de casa… a voltar a namorar… a passar pela menopausa… a envelhecer…a fazer os lutos e tantas outras coisas… A vida seria muito mais dura se não fossem pelas irmãs-amigas… amigas- irmãs… com as quais podemos falar e elaborar tanto as dores como as delícias que vamos experimentando ao longo da estrada…
“Mulherar” ajuda a fabricar tecido psíquico… um tecido que vai sendo bordado coletivamente… criando novos desenhos e novas formas de pensar e dar sentido às nossas vivências e à nossa história.”
Sentindo falta de “mulherar” 🥰”
By Helena Albuquerque, psicanalista, mestre da USP
Trechos do livro “O Arroz de Palma”, de Francisco Azevedo.
“Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema… Não é para qualquer um. Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir… Mas a vida… sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite. O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida. Fulana sai a mais inteligente de todas. Beltrano veio no ponto; é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade. Sicrano, quem diria? Solou, endureceu, murchou antes do tempo. Este é o mais gordo, generoso, farto, abundante. Aquele, o que surpreendeu e foi morar longe. Ela, a mais apaixonada. A outra, a mais consistente… Já estão aí? Todos? Ótimo! Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados. Logo, logo, você também estará cheirando a alho e cebola. Não se envergonhe de chorar. Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza. Primeiro cuidado: temperos exóticos alteram o sabor do parentesco. Mas, se misturados com delicadeza, estas especiarias, que quase sempre vêm da África e do Oriente e nos parecem estranhas ao paladar, tornam a família muito mais colorida, interessante e saborosa. Atenção, também, com os pesos e as medidas. Uma pitada a mais disso ou daquilo e, pronto: é um verdadeiro desastre. Família é prato extremamente sensível. Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido. Outra coisa: é preciso ter boa mão, ser profissional. Principalmente na hora que se decide meter a colher. Saber meter a colher é verdadeira arte. Às vezes, o ídolo da família, o bonzinho, o bola cheia que sempre ajudou, azedou a comida só porque meteu a colher. O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita. Bobagem! Tudo ilusão! Família é afinidade, é à Moda da Casa. E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito. Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras apimentadíssimas. Há também as que não têm gosto de nada. Seria assim, um tipo de Família Dieta, que você suporta só para manter a linha. Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo. Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir. Enfim, receita de família não se copia, se inventa. A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia a dia. A gente cata um registro ali, de alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou no pedaço de papel. Muita coisa se perde na lembrança. O que este veterano cozinheiro pode dizer é que, por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer. Se puder saborear, saboreie. Não ligue para etiquetas. Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro. Aproveite ao máximo. Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete!
Família: Feliz quem tem, sabe curtir, aproveitar e valorizar!!!
Tão sutilmente em tantos breves anos foram se trocando sobre os muros mais que desigualdades, semelhanças, que aos poucos dois são um, sem que no entanto deixem de ser plurais: talvez as asas de um só anjo, inseparáveis. Presenças, solidões que vão tecendo a vida, o filho que se faz, uma árvore plantada, o tempo gotejando do telhado. Beleza perseguida a cada hora, para que não baixe o pó de um cotidiano desencanto.
Tão fielmente adaptam-se as almas destes corpos que uma em outra pode se trocar, sem que alguém de fora o percebesse nunca.
Aqui me vi exatamente como me sinto. Lindo e profundo o texto da minha amiga Irina Marques! Leiam:
Sou do tipo resiliente otimista e mesmo nos momentos mais difíceis que já enfrentei pela vida, que com certeza me abateram… também sempre acreditei que tudo ia passar, eu aprenderia algo novo… e iria sair dali mais forte e melhor. Tudo tem seu tempo. E cada um tem o seu. E assim aconteceu.
Lembranças trazem “mergulhos profundos”, retalhos de nós que se escancaram e trazem a tona algumas cicatrizes.
Com o tempo sei que sempre estive na hora e nos momentos certos da vida. Tudo no seu devido lugar. Gratidão por isto.
Tenho uma tendência para me esquecer facilmente das coisas, outras vezes não, as coisas marcam de forma a criar cicatriz. Quando olhamos, ela está sempre lá, e muitas vezes é costume esquecermos a história que ela tem para contar. A nossa cicatriz, é apenas nossa e só cabe a nós conseguir entender, desvendar e aprofundar as causas e consequências dela.
Muitas vezes, o que acontece, é as pessoas tomarem as nossas dores, seja por simpatia, empatia ou compaixão. Está certo, num mundo perfeito as coisas deveriam ser assim, talvez num mundo mais sentimental e menos competitivo esta, seria uma utopia perfeita. Acordamos para a vida.
Ontem, dei por mim a escrever, a escrever muito, a escrever tanto que a dor começou a tomar lugar. Questionei, encontrei respostas, voltei a questionar, vi outras perspetivas, tentei pôr-me do outro lado, voltei a escrever – criar personagens, sair da zona de conforto e observar outras realidades.
Aprendizagens que temos no decorrer da vida, por vezes esquecemos ou outras vezes abordamos de forma diferente, com tempo, aprendizagens e, o olhar não é o mesmo de hoje, de ontem, dos meses passados, dos anos… O que escrevo hoje daqui a dois anos pensarei de outra forma, é assim que tem ocorrido, tem sido uma constante. São relatos, pedaços de mim, deixados para trás para que eu própria consiga rastear.
E por ter esta tendência para me esquecer, tenho a mesma tendência a relatar, a testemunhar a minha presença e pensamento através de textos, de reflexões até mesmo para recordar. A memória é a coisa mais falível que temos, se nos lembramos de algo, não é exatamente como foi mas preenchemos essas lacunas para que isso mesmo faça sentido – ora para o bem, ora para o mal.
Nos mergulhos profundos foi onde eu encontrei as melhores explicações, o cerne da questão, a raiz. E nesses mergulhos profundos, não entendia a sua própria profundidade, ainda não entendo, continuo a mergulhar enquando as minhas forças me permitem. E quanto mais mergulho, mais são as descobertas que faço, horizontes que se relevam, testemunhos que tenho que relatar mas já não os exponho. Todos os que expus resolvi apagar, conforme referia, as palavras são minhas mas expostas podem não conseguir manifestar o que cá vai dentro.
Através da expressão e relatos guardados, é o que me permite encontrar, montar as peças e dar forma a tudo o que se passou e se encontra a passar. E muitas vezes esqueço, é verdade que esqueço, lições que aprendi e esqueci, nesses mesmos relatos estão essas lições – constantes, que me lembram – este é o caminho a tomar, ali, vais errar. Não são roteiros rígidos, são apenas registos para não me perder, novamente mas saborear a corrente. As constantes, mantêm-se nos relatos e, permitem-me desviar.
Pedaços de vida que não se compõem aqui, mas sim noutro lugar. As artes, são apenas um testemunho, do que no interno se está a passar.