COISAS QUE APRENDI FICANDO SOZINHA.

Deixe-me envelhecer

“Nunca estou mais acompanhado… do que quando estou sozinho”. Cícero

Penso que ficar só é necessário para nos reencontrarmos, para relembrar nossa essência, para olharmos exclusivamente para nós mesmos… e nos conhecermos melhor. Então descobriremos um pouco mais sobre nós mesmos e muitas outras coisas rsrsr…  vamos entender assim nossos reais necessidades. Enquanto vamos amadurecendo parece que temos mais facilidade e necessidades de fazer isso…  pelo menos algumas vezes. Comigo é assim…

Estarmos de bem com nós mesmos é muito bom, acreditem…  Gosto muito do que Guilherme Moreira Jr. nos diz, leiam:Jogue ForaÉ bem simples, ficar sozinho não me deixou incompatível para estar ao lado de outra pessoa. Ficar sozinho foi uma decisão de amor próprio, onde todo o tempo que passei em contato comigo permitiu que eu entendesse a importância de valorizar quem chega, quem fica feliz com a minha companhia.

Desconfio que esse é o primeiro mandamento da reciprocidade, saber encontrar a paz de estar inteiro consigo. Porque quando você é capaz de se enxergar sorrindo sem depender de ninguém, você entende a verdadeira essência dos relacionamentos. Teria maturidade emocional em aceitar a solidão dos próprios pensamentos é o começo mais acertado para o momento no qual finalmente baixar a guarda junto de outra pessoa.

Ficar sozinho é passar a confiar nos seus sentimentos. É não ter medo de deixar fluir as coisas. Você não controla o tempo e as atitudes alheias. A ausência e o desprendimento de ter alguém caminhando junto a todo momento, além de me ensinar sobre dependência afetiva, também me ensinou sobre leveza. A solidão não precisa ser um peso. Ela pode muito bem ser um trajeto de descobrimento e soma daquilo que se quer. No caso, tranquilidade e equilíbrio.A 1Ficar sozinho é criar uma própria balança sentimental, daquela na qual você aprende a manusear sem ultrapassar o limite das decepções amorosas que pode suportar. Do outro lado, você consegue encaixar os melhores encontros, as melhores experiências. Claro, não é uma ciência exata. Não existe nada de exato quando falamos do coração da gente, mas isso não significa a impossibilidade de querermos algo ou alguém em sintonia com os nossos afetos.

Ficar sozinho também me ensinou, e com muito amor, a não desmerecer entregas. Porque quem acolhe os nossos sonhos, quem luta do nosso lado, quem demonstra vontades sem cobrar nada em troca, esse é o tipo de pessoa que faço questão em dar uma pausa nos meus silêncios. Acredite, não é sempre que temos a chance de conhecer alguém assim. Então, faça o possível para quem te der essa liberdade sentir-se em casa.

Ficar sozinho não me tornou incapaz de amar outra pessoa. Ficar sozinho fez o meu amor crescer. A única diferença é que aprendi que antes de desejar da vida um amor de verdade, primeiro preciso saber amar os meus próprios lados. By Guilherme Moreira Jr.img_1463Ficar só é necessário para nos reencontrarmos, para relembrar nossa essência, para olharmos exclusivamente para nós mesmos… E então nós descobrirmos um pouco mais e entender assim nossa real necessidade.

E vocês o que acham disso? Gostaram?

EU CANSEI DE OUVIR CONCEITOS SOBRE ENVELHECER BEM…

ENVELHECER 2

“… e até falar sobre a fragilidade da vida.”  Déa Januzzi

Déa Januzzi e seus apaixonantes sentidos, leiam a crônica:

Se eu deixar de fumar, parar de tomar vinho, praticar atividade física regularmente. Se levar uma vida equilibrada, sem dívidas, planejada, com viagens pelo menos uma vez por ano, se tiver contato com a natureza, se viver perto do mar, se minha alimentação constar de orgânicos e sucos verdes, se eu não colocar frituras nem embutidos nem carnes no meu prato. Se virar vegana, conversar com Deus em linha direta, negociar com Ele tempo de vida, se eu fizer acupuntura, massagens para desenferrujar o corpo, se ouvir música sempre, ler, malhar o cérebro com atividades para a memória, vou viver muito?

Certamente, os médicos e especialistas em envelhecimento vão responder que sim. Este é o caminho do envelhecimento ativo, que garante uma vida longa e saudável. Mas vou dizer para vocês: cansei de ouvir conceitos sobre envelhecer bem, que se faça isso e aquilo, que é preciso evitar um tanto de coisas que mudam conforme a época. Cansei de ver pessoas escrevendo livros com receitas físicas ou psicológicas sobre o terceiro tempo da vida, que, hoje, dizem as estatísticas demográficas, podem levar aos 100 ou mais anos.terceira-idadeNão entendo, porém, quando as notícias divulgam a morte da atriz e estrela de primeira grandeza, Marília Pera, aos 72 anos. Quando meu amigo, mestre, jornalista e escritor Roberto Drummond morre, de repente, do coração antes dos 70, apesar de ter parado de fumar há anos, de beber moderadamente, de fazer ginástica, de ter uma vida produtiva e criativa, de ter chegado ao sucesso com a minissérie global “Hilda Furacão” e de um sem número de livros que venderam muito e agradaram ao leitor.

Gostaria de entender como é que um jornalista de 64 anos, que morava numa cidade de interior, com dois filhos ainda pequenos, de nome Marco Otávio, o Marão, morre de câncer tão cedo? Gostaria muito de ter uma fórmula, uma receita, mas parece que a vida tem seus mistérios. Não é receita de bolo. Nem de especialistas nem de manuais e regras de viver bem.

Gostaria muito de entender a vida, que não está em compêndios nem em livros de academia. Para mim, que não sei quanto tempo de vida tenho, tudo deve partir do prazer e da alegria. Pois vida para mim é compartilhamento, é o cuidado com o outro, é dar bom dia ao vizinho, ao porteiro do prédio. É conversar e aprender com a faxineira do prédio. Para mim, vida é se esbaldar no japonês comendo sushis e sashimis, é beber vinho como quem comunga com Deus, é encontrar o Irmão Raimundo Rabelo Mesquita, na Cantina do Lucas. Aos 83 anos, ele me convida para comemorar o Natal antecipado tomando vinho ao meio-dia e comendo um macarrão à parisiense com muito creme de leite. Com um detalhe: ele veio lá da Inspetoria Dom Bosco, no Bairro Dom Cabral, de ônibus. E voltou no mesmo transporte, depois de tomar vinho, comer, conversar, rir e contar coisas de Deus. Nós dois sempre fomos assim. Depois de anos como fonte de reportagens, Mesquita e eu nos tornamos amigos de fé e não deixamos de comemorar o Natal, de trocar ideias e até falar sobre a fragilidade da vida.ENVELHECER 2Viver para mim é estar com pouco dinheiro numa sexta-feira à noite, mas sair com a minha irmã Kátia para um desses bares do centro da cidade e contar as notas e moedas para ver quantas cervejas podemos tomar. E ver um cara na mesa ao lado mandar torpedos para a nossa mesa. De papel, acreditam? Devidamente escrito a mão e dobrado, para dizer que quer encontrar de novo, porque “somos simpáticas e charmosas e encantadoras.” No fim do torpedo, o telefone dele, entregue em mãos da minha irmã.

Depois, voltar para casa rindo de tudo o que aconteceu, à meia-noite, de ônibus, com a chuva caindo sobre nossas cabeças. Viver para mim é ir ao Sítio Sertãozinho, da minha amiga da montanha e entrar na piscina para movimentar o corpo dentro da água. É saber dessa amiga preciosa que “as nuvens passam, mas o céu fica”. Ter a certeza de que o Salmo 104, versículo 15, é profético. “O vinho que alegra o coração do homem, e o azeite que faz reluzir o seu rosto e o pão que fortalece o coração…” Para mim, só vale a pena viver, pouco ou muito, dessa maneira.

Sempre me identifico muito com o jeito dela. Gostaram?

NOSSAS ESCOLHAS! SÃO ELAS QUE NOS LIBERTAM… SÃO ELAS QUE NOS APRISIONAM…

gratidaofoto02

“Você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências.” Pablo Nereda

Adorei esta crônica de Cleonio Dourado. Sim… Somos donos de nossas escolhas, responsáveis por nossas decisões, únicos donos de nossa vida. Somos nós quem escolhemos o (ao)  lado de quem ficar, as consequências que teremos que carregar, os fatos que teremos que julgar, as pessoas que ficarão conosco: Quais? Aquelas que nos levarão ao céu ou aquelas que nos carregarão para baixo, pois somos quem abre a porta, somos quem as deixa entrar.

Cada atitude de hoje, refletirá no amanhã. Conscientes ou não, a nossa história é um filme e o final não depende do começo, é nesse intervalo que escrevemos os momentos mais importantes. Se afastar de alguns, aproximar-se de outros, escolher em quem e no que acreditar é um fardo seu. Decidir se vai varrer o lixo pra debaixo do tapete ou fingir acreditar nas suas próprias dúvidas é um peso que terá que suportar.
O arrependimento sincero alivia, perdoa, tira a mácula, tira o peso. Mas acredite, não há espaço para o bem e o mal no mesmo bolso. A escolha é sua sobre o que carregar. Não há muitas chances, saiba usar cada uma, nem sempre haverá reparos e muita coisa não terá conserto de maneira alguma.

Algumas decisões serão pra sempre, algumas vão doer à vida toda, vão deixar cicatrizes, serão inesquecíveis e inexplicáveis, mas tenha consciência de que serão somente suas. Seja amigo do tempo. Pare, pense, reflita, se permita mudar, traçar outros caminhos, escrever outros destinos, reescrever outras histórias, se reeducar, aprender.

saude emocional 2

O tempo é o melhor dos juízes: Revela às aparências, descobre as mentiras, expõe o caráter. Algumas verdades são evidentes por si mesmas. Seu coração é o advogado de defesa, lhe dá o livre arbítrio para que você mesmo decida seus atos e te permite o arrependimento e o perdão a qualquer tempo. Sua consciência, o advogado de acusação, ouça-a sempre que tiver dúvidas. Seremos julgados um dia, tenha certeza disto. Somos imperfeitos, pecadores, erramos aos montes, mas temos também a capacidade de dar a volta por cima, pedir perdão, buscar o acerto e admitir os erros. O melhor a fazer e tentar fazer tudo o mais bem feito possível, não temos que ser bons, temos que tentar sermos melhores a cada dia, temos que tomar as melhores decisões, as melhores escolhas, escolher sempre por onde andar, aonde ir e onde voltar. Nossas escolhas são como tatuagens permanentes em nossa alma, ainda que ninguém as veja, nós sabemos que elas estão lá e sentimos a dor de cada corte que foi necessária para fazê-las. Com o tempo a gente aprende que somos donos de nossa liberdade, mas eternos prisioneiros de como usamos ela.

Fonte: http://www.asomadetodosafetos.com/2017/12/nossas-escolhas-sao-elas-que-nos-libertam-sao-elas-que-nos-aprisionam.html

A MULHER QUE EXISTE EM MIM… O DOM DE ARDER!

“A mulher é uma incógnita… Um monumento à dúvida.” Mario Nhardes

Fogueira

Mais uma crônica de Déa Januzzi que eu adoro. Esta é a mulher que existe em mim… que arde, incendeia, para clarear o próprio caminho… assim, assim… Espero que apreciem. Leia:

A mulher que existe em mim está dormindo. Um sono tão profundo que nem príncipe encantado pode acordar. Nem Maria nem Madalena nem Verônica nem Amélia. A mulher que existe em mim não consegue lavar, passar, cozinhar, arrumar, sofrer em silêncio diante do calvário de um filho. Nem enxugar o suor que escorre da via-crúcis de todo dia. Nem quer ser a mulher de verdade. Nem a que se arrepende do que fez. A que expia os seus pecados.

A mulher que existe em mim viajou – e de algum lugar do passado escreve cartas de alforria para as escravas da paixão. Desse lugar bem distante, a mulher que existe em mim manda recados urgentes, pede socorro. Grita, esperneia, mesmo em silêncio, emudecida.

A mulher que existe em mim evaporou, e as gotas ficaram condensadas no ar dessa opressão. Você ainda sente o perfume dessa mulher que, em noites de Lua cheia, exala na esquina da sua casa?

A mulher que existe em mim não tem nada a ver com Cleópatra, a rainha do Egito, que se banha em leite de cabra com pétalas de rosas e almíscar, que desenha os olhos com lápis crayon para chegar perto de sua nobreza. Nem com as gueixas, que se preparam, se enfeitam, se vestem, para agradar o outro.

A mulher que existe em mim está engessada. Ela não sabe mais dançar. Não tem mais ritmo próprio, se esqueceu dos passos, da ginga, das curvas, da festa que existia em seu corpo. A mulher que existe em mim está presa a uma tala de gesso. Não pode virar para um lado nem para o outro. Esqueceu os acordes da alma.

A mulher que existe em mim virou fantasma de uma outra que gostava de rir e de brincar, de celebrar a vida. Vive em sobressalto, em pesadelo constante. A mulher que existe em mim não sabe bordar nem costurar nem tricotar, muito menos fiar, pois sempre fere o dedo na roca. Não tem tranças para jogar lá de cima do castelo onde está presa. Essa mulher cansada está enroscada nos fios que ela mesma produziu.

_-aumentar-felicidade

A mulher que existe em mim foi passear e não voltou para mostrar que ainda é tempo de semear a sensibilidade, de conversar em calma, de confessar coisas boas, de compreender e de germinar. Mas a mulher que existe em mim vive em transe, por amar demais, sem medidas, sem pouso, sem sossego. De vez em quando, ela precisa ficar internada no hospício da própria loucura, pois a mulher que existe em mim não é lúcida, muito menos comportada. Nem pode ser colocada numa camisa de força. Nem em redoma de vidro.

A mulher que existe em mim não se quebra, nem se dissolve.
A mulher que existe em mim arde como flor de papoula que abriga o ópio dentro de sua beleza rubra e estarrecedora. Ela não mostra o afeto que possui para não gastar. Ela não ama em dobro para não desgastar, porque amor demais esgota.

A mulher que existe em mim desapareceu, se exilou em outras paisagens, no cair da tarde, entre nesgas douradas do crepúsculo. Às vezes, ela é a poeta que se descobriu já no entardecer da vida. Outras vezes precisa de colo, como uma menina.

A mulher que existe em mim briga o tempo inteiro consigo mesma, como se estivesse enjaulada num papel que não é o seu. Ela dorme um sono letárgico, entorpecedor, analgésico, ansiolítico – e acorda tonta, desmesurada.
A mulher que existe em mim, um dia, amanhece sem susto, renovada. Desperta sem cansaço, refeita, em paz, sem modelos para copiar, sem culpa, sem medo, sem gesso, sem molde, sem fôrma de bolo.

A mulher que existe em mim agora arde, incendeia, para clarear o próprio caminho. A mulher que existe em mim acordou, espreguiçou, sem beijo de príncipe encantado. Sem varinha de condão, sem nenhuma mágica, a mulher que existe em mim derrubou as paredes do tédio, arrebentou as grades da mesmice. Revirou-se pelo avesso, se contorceu, até encontrar o seu cerne.

A mulher que sou, não quer mais ser forte nem sofredora nem amarga nem estar em dívida consigo mesma. Muito menos carrasca de si própria. A mulher que existe em mim não é algoz, mas tem olhos profundos para decifrar o mundo.

Esta crônica da jornalista e escritora Déa Januzzi, foi publicada originalmente no Estado de Minas.

DEPOIS DOS 60 ANOS, NÃO SE FAZ SEXO PELO PRAZER DO MOMENTO… É MUITO MAIS!

Velhos-sexo

“Envelhecer é estar mais perto do sagrado, das coisas que realmente importam.” Déa Januzzi

Adoro as crônicas de Déa Januzzi… traz leveza á minha alma! E vocês gostam? Leiam:

Por um momento nossos olhos se cruzaram. Um único instante, depois de tantos anos de acusações, de farpas, de culpas engasgadas na garganta. Por um momento nossos olhos se cruzaram sem a presença de outras pessoas para vigiar, disciplinar, julgar. Nossos olhos se cruzaram por um rápido instante e quase se engoliram. Nossos olhos fizeram sexo como se ainda fôssemos jovens. Mas se desviaram a tempo, porque não há mais chance para os olhos do passado.

Depois dos 60 anos, não se faz sexo pelo prazer do momento nem pelo tesão descontrolado dos hormônios, porque há muito eles se foram. Depois dos 60, o sexo vira amor e os olhos querem mais do que fúria. Querem calmaria. Depois dos 60, os olhos querem delicadeza, ternura, compartilhamento. Os olhos não se enganam mais, sabem vasculhar a alma, enxergam os erros, veem as consequências dos atos tresloucados do sexo sem cumplicidade.

Depois dos 60 anos, os olhos querem, trocam, mas já compreendem que a sedução é mais do que o ato em si. Os olhos querem ser abraçados, tocados, compreendidos em sua vastidão, em toda a sua profundeza. Não há mais tempo do sexo fugaz que pode pesar a vida da mulher. Depois de tudo, ela vai carregar um filho no ventre e nas costas por toda uma vida. O filho é a parte saudável e não pesa tanto quanto o momento de prazer sem compromisso. Afinal, o filho é a prova de que por um instante os pais se amaram. Ou fizeram sexo com paixão.

Mas depois dos 60 anos, os olhos não se enganam mais, estão acostumados com a falta de compromisso e de compaixão do outro, com o amanhã da solidão, com o anteontem das separações, brigas e falta de amadurecimento para ser pai e mãe de verdade.

Tenho amigas que descobriram o beijo na boca depois dos 60 – e chegaram às nuvens. Nesta nova fase da vida, sexo tem que fazer cafuné na alma. E sabem onde fica o Ponto G dessas mulheres? Fica no coração, que tem de ser tocado com maestria, talento e competência, como se fosse uma música de Vivaldi, de preferência uma das Quatro Estações. As preliminares depois dos 60 podem durar a noite inteira, até acordar em gozo, gemendo de amor.

sexo-na-terceira-idade-1505252949604_v2_900x506

Por um momento nossos olhos se cruzaram e se reconheceram. Os olhos se lembraram das tentativas, do projeto de formar uma família, de viver junto, de construir uma vida em comum. Por um momento, os olhos se lembraram da primeira vez, da emoção de ter um corpo dentro do outro. Das lágrimas derramadas pela primeira e ardente vez. Da paixão que fulminou a razão.

Mas os olhos não mentem e se desviam rapidamente, sem outra chance. Os olhos se lembram de que foram aqueles mesmos olhares que seduziram uma mulher de 20 anos, que foi abandonada, sem gentileza, sem escrúpulo, sem resposta para toda a vida. Que foi degredada e teve que aprender sozinha a criar filho, mas com o apoio de outras mães sozinhas, de uma rede de solidariedade feminina.

Depois dos 60 anos, os olhos compreendem que é melhor não cair em tentação. E que é hora do adeus. Os olhos se cruzaram, se desviaram e se despediram.

PARA QUE A EXISTÊNCIA VALHA A PENA!

Lya luft

“… acho que a vida é um processo… É como subir uma montanha. Mesmo que no fim não se esteja tão forte fisicamente, a paisagem visualizada é melhor.” Lya Luft

Lindo esta crônica de Lya Luft, me faz refletir realmente sobre o significado de nossa existência. Reinventar-se… se não caímos na mediocridade, na mesmice, na chatice. E convenhamos, não estudamos, trabalhamos, investimos em nosso conhecimento e autoconhecimento para, no final, não sermos respeitados nem pelo nossos pares e por nós mesmos. Espero que gostem. Leiam:

Não lembro em que momento percebi que viver deveria ser uma permanente reinvenção de nós mesmos — para não morrermos soterrados na poeira da banalidade, embora pareça que ainda estamos vivos.

Mas compreendi, num lampejo: então é isso, então é assim. Apesar dos medos, convém não ser demais fútil nem demais acomodada. Algumas vezes é preciso pegar o touro pelos chifres, mergulhar para depois ver o que acontece: porque a vida não tem de ser sorvida como uma taça que se esvazia, mas como o jarro que se renova a cada gole bebido.

Para reinventar-se é preciso pensar: isso aprendi muito cedo.

Apalpar, no nevoeiro de quem somos, algo que pareça uma essência: isso, mais ou menos, sou eu. Isso é o que eu queria ser, acredito ser, quero me tornar ou já fui. Muita inquietação por baixo das águas do cotidiano. Mais cômodo seria ficar com o travesseiro sobre a cabeça e adotar o lema reconfortante: “Parar pra pensar, nem pensar!”

O problema é que quando menos se espera ele chega, o sorrateiro pensamento que nos faz parar. Pode ser no meio do shopping, no trânsito, na frente da tevê ou do computador. Simplesmente escovando os dentes. Ou na hora da droga, do sexo sem afeto, do desafeto, do rancor, da lamúria, da hesitação e da resignação.

Sem ter programado, a gente pára pra pensar.

Pode ser um susto: como espiar de um berçário confortável para um corredor com mil possibilidades. Cada porta, uma escolha. Muitas vão se abrir para um nada ou para algum absurdo. Outras, para um jardim de promessas. Alguma, para a noite além da cerca. Hora de tirar os disfarces, aposentar as máscaras e reavaliar: reavaliar-se.

Pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem do superficial que nos pressiona tanto.

Somos demasiado frívolos: buscamos o atordoamento das mil distrações, corremos de um lado a outro achando que somos grandes cumpridores de tarefas. Quando o primeiro dever seria de vez em quando parar e analisar: quem a gente é, o que fazemos com a nossa vida, o tempo, os amores. E com as obrigações também, é claro, pois não temos sempre cinco anos de idade, quando a prioridade absoluta é dormir abraçado no urso de pelúcia e prosseguir, no sono, o sonho que afinal nessa idade ainda é a vida.

Mais-velha

Mas pensar não é apenas a ameaça de enfrentar a alma no espelho: é sair para as varandas de si mesmo e olhar em torno, e quem sabe finalmente respirar.

Compreender: somos inquilinos de algo bem maior do que o nosso pequeno segredo individual. É o poderoso ciclo da existência. Nele todos os desastres e toda a beleza têm significado como fases de um processo.

Se nos escondermos num canto escuro abafando nossos questionamentos, não escutaremos o rumor do vento nas árvores do mundo. Nem compreenderemos que o prato das inevitáveis perdas pode pesar menos do que o dos possíveis ganhos. Os ganhos ou os danos dependem da perspectiva e possibilidades de quem vai tecendo a sua história. O mundo em si não tem sentido sem o nosso olhar que lhe atribui identidade, sem o nosso pensamento que lhe confere alguma ordem.

Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas “elaborada”. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.

Parece fácil: “escrever a respeito das coisas é fácil”, já me disseram. Eu sei. Mas não é preciso realizar nada de espetacular, nem desejar nada excepcional. Não é preciso nem mesmo ser brilhante, importante, admirado.

Para viver de verdade, pensando e repensando a existência, para que ela valha a pena, é preciso ser amado; e amar; e amar-se. Ter esperança; qualquer esperança.

Questionar o que nos é imposto, sem rebeldias insensatas mas sem demasiada sensatez. Saborear o bom, mas aqui e ali enfrentar o ruim. Suportar sem se submeter, aceitar sem se humilhar, entregar-se sem renunciar a si mesmo e à possível dignidade. Sonhar, porque se desistimos disso apaga-se a última claridade e nada mais valerá a pena. Escapar, na liberdade do pensamento, desse espírito de manada que trabalha obstinadamente para nos enquadrar, seja lá no que for.

E que o mínimo que a gente faça seja, a cada momento, o melhor que afinal se conseguiu fazer. By Lya Luft

CASA ARRUMADA – Carlos Drummond de Andrade.

” Eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade que se petrifica e nenhuma força o resgata”. Carlos Drummond de Andrade.

Assim como Carlos Drummond de Andrade, penso que uma “casa” só existe quando tem vida! Casa é lar! Leiam esta crônica:

Casa arrumada é assim: Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz.

Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não centro cirúrgico, um cenário de novela. Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas… Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo: Aqui tem vida…

Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar. Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha. Sofá sem mancha? Tapete sem fio puxado? Mesa sem marca de copo? Tá na cara que é casa sem festa. E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.

Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde. Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante, passaporte e vela de aniversário, tudo junto…

Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda. A que está sempre pronta pros amigos, filhos… Netos, pros vizinhos… E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia.

Arrume a casa todos os dias… Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo para viver nela… E reconhecer nela o seu lugar.

 

 

A DELICIOSA ARTE DE LIGAR O FODÔMETRO…

cores 1

“ O futuro pertence áqueles que acreditam na beleza de seus sonhos.” Eleanor Roosevet

Tem dias que pensamos que o melhor de tudo seria… mandar tudo á… Estou aprendendo! Quem aprende a ligar o fodômetro percebe que nada é tão urgente assim e que ganhando ou perdendo a vida continua sempre em frente. Deveríamos nos cobrar menos e nos permitir mais. Deveríamos nos culpar menos e nos divertir mais. Deveríamos lembrar e esperar menos e viver mais.

Dominar a técnica de ligar o fodômetro é uma das poucas lições que deveríamos realmente aprender na vida! Mas não se iluda caro leitor. Ela exige muita prática e muita disciplina. Não é do dia para a noite que se incorpora a deliciosa conduta de mandar a PQP o que deu errado. Provavelmente, muitas tentativas e erros serão necessários antes de uma habilitação quase que perfeita. Mas não desanime. Se investimos tanto tempo, dinheiro e energia em coisas completamente supérfluas, por que não se dedicar a algo realmente libertador?

Não me amou? Que pena. Nem todo mundo tem bom gosto. Não gosta de mim? Que coincidência! Também não gosto de você! Não respeita as minhas opiniões? Vai se fazer o quê? Unanimidade é uma utopia. Não me contrataria para a sua empresa? Existem muitas outras bem mais bacanas! Acha que devo fazer sexo contigo para conseguir a vaga que quero? Não me ofendo. Você é só mais um babaca que quer apenas sexo comigo. Falou mal de mim pelas costas? Acontece. Falamos mesmo. Faz parte da raça humana falar e falar para depois pensar.  saude emocional 2

Não tem tempo para tomar um café comigo? Ok. Talvez você não goste de café ou prefere outro tipo de companhia. Mais uma vez penso no lance da unanimidade. Aquela oportunidade que eu tanto esperei não saiu? Não foi a primeira nem será a última. Enquanto isso, tomo meu vinho vendo um filme de arte ou conversando com uma amiga louca. O restaurante que adoro está caro demais para o meu orçamento? De duas uma: como salsicha o mês todo para poder pagar um jantar espetacular ou aceito a frustração de não poder frequentar um lugar caro.

Não deu para ver a peça teatral que eu queria pois os convites estão esgotados? Compro ingresso para outra e se um dia esta peça voltar a entrar em cartaz, dou pulos de alegria. Minha melhor amiga não me compreende? Arrumo outra. A roupa da moda me deixa um horror? Compro uma que não está ou uso uma velhinha mesmo. Vejo pelo lado bom: economizo e talvez até consiga pagar aquele restaurante bacana.

Não tenho com quem sair no final de semana? Saio comigo mesmo ou fico em casa fazendo qualquer coisa que me agrada. A vida acontece na rua ou em casa. A vida acontece onde a gente estiver se pusermos um pouco de imaginação. Estou namorando? Que delícia! A noite promete! Estou sem namorar? Beleza! Posso ficar mais uma semana sem me depilar.

Um amigo está se tornando inconveniente demais? Não é preciso ser mal educado. Basta evitá-lo. Ficam dizendo o tempo todo como devemos viver? Beleza! Podemos escutar mas não devemos processar a informação. Depois vale a pena dar um bom gelo no chato de plantão. Me invejam? Que joia! Ser invejado é para poucos! Estou sem namorar? Saio com os amigos! Pode ser bem mais divertido! Estou namorando? Arrumo um jeito de deixar meu namorado completamente excitado num local público. É uma experiência e tanto!

Aquela jaquetinha fashion não tem no meu número? Perfeito! Economizo! A vendedora de repente descobriu um último exemplar abandonado no estoque? Maravilha! O restaurante que sempre vou está lotado? Talvez seja a oportunidade para conhecer um lugar novo. Ganhei? Muito bom! Ganhar é sensacional. Perdi? Paciência. Pelo menos aprendi alguma coisa. Em resumo: quem aprende a ligar o fodômetro percebe que nada é tão urgente assim e que ganhando ou perdendo a vida continua sempre em frente. Deveríamos nos cobrar menos e nos permitir mais. Deveríamos nos culpar menos e nos divertir mais. Deveríamos lembrar e esperar menos e viver mais. Mais vale o prazer de um provolone à milanesa que existe do que a projeção de um castelo na Itália. Capisce?

http://www.resilienciamag.com/deliciosa-arte-de-ligar-o-fodometro/

DEIXEM-ME ENVELHECER…

Deixe-me envelhecer.jpg

“Quero saber envelhecer, ser uma velha consciente e feliz!!!” Conchita Werber

Adorei ler este poema de Conchita Weber, brasileira do Maranhão, autora de vários livros, que vive há mais de duas décadas na Alemanha, que encontrei no Blog 50emais.

Aprecio sua maneira de viver e especialmente ao final do poema, no qual a autora menciona a expressão “ser feliz.” Feliz, felicidade – estado da alma extremo e raro. No lugar de ser feliz, tão utópico, por que não: satisfeita, contente, alegre, animada, jubilosa, exultante, risonha, radiante, sorridente?… Leiam:

Deixem-me envelhecer sem compromissos e cobranças,

Sem a obrigação de parecer jovem e ser bonita para alguém,

Quero ao meu lado quem me entenda e me ame como eu sou,

Um amor para dividirmos tropeços desta nossa última jornada,

Quero envelhecer com dignidade, com sabedoria e esperança,

Amar minha vida, agradecer pelos dias que ainda me restam,

Eu não quero perder meu tempo precioso com aventuras,

Paixões perniciosas que nada acrescentam e nada valem.

Deixem-me envelhecer com sanidade e discernimento,

Com a certeza que cumpri meus deveres e minha missão,

Quero aproveitar essa paz merecida para descansar e refletir,
Ter amigos para compartilharmos experiências, conhecimentos,

Quero envelhecer sem temer as rugas e meus cabelos brancos,

Sem frustrações, terminar a etapa final desta minha existência,

Não quero me deixar levar por aparências e vaidades bobas,

Nem me envolver com relações que vão me fazer infeliz.

Deixem-me envelhecer, aceitar a velhice com suas mazelas,

Ter a certeza que minha luta não foi em vão: teve um sentido,

Quero envelhecer sem temer a morte e ter medo da despedida,

Acreditar que a velhice é o retorno de uma viagem, não é o fim,

Não quero ser um exemplo, quero dar um sentido ao meu viver,

Ter serenidade, um sono tranquilo e andar de cabeça erguida,

Fazer somente o que eu gosto, com a sensação de liberdade,

Quero saber envelhecer, ser uma velha consciente e feliz!!!

Veja o poema declamado por Sérvulo Augusto:

Espero que gostem.

JOGUE FORA O QUE NÃO TE CABE MAIS…

img_4489

“ Desapego não se trata de desistir. Desapego é aceitar o fato de que você merece coisa melhor.”  Vanessa Pimentel

Gostei do que Mafê Probst nos diz. Vale uma boa reflexão. Leiam:

Odeio acúmulos. Não sei lidar com excessos, com coisas acumulando poeira, com histórias guardadas e ocupando o espaço de gavetas, armários e coração. Não. Prefiro o pouco. Vira e mexe paro a rotina para me desfazer de tudo e deixar a casa e a alma leve. Os olhos agradecem, depois. O coração, que pulsa tranquilo, também.

Faz um tempo que me livrei do apego ao desnecessário. No começo doía um bom bocado abrir mão, jogar fora, doar. Parecia que parte de mim ia embora, sabe? Quando entendi que eu precisava me desfazer desses entulhos e sentimentos, percebi que, na verdade, não era parte de mim que ia. Era tanto espaço que sobrava, que eu ficava maior – e não me reconhecia.

Não sofro mais. Acredito que tudo deve ir, quando já deu seu prazo de validade. Sejam roupas, sapatos, sentimentos – pessoas. Ninguém nasceu para ser eterno — essa é a maior mentira do universo. O mundo é cíclico. Tudo se renova para poder seguir, para que não fiquemos parados no mesmo tempo e espaço, só vendo os dias se desenrolarem, sem sentido, sem sentir.

Agora fico só com o que pulsa. Com o que me rouba o fôlego, com que me arranca o riso, com o que me tira da zona de conforto. E, apesar de, ainda gosto de acumular – e acumulo mesmo! – sorrisos, boas memórias e rolhas de vinho, preferencialmente as que foram bebidas em boa companhia…

Gostaram?

Fonte: http://www.asomadetodosafetos.com/2017/07/jogue-fora-o-que-nao-te-cabe-mais.html