CANÇÃO DA PLENITUDE.

Não tenho mais os olhos de menina nem corpo adolescente, e a pele translúcida há muito se manchou.

Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura agrandada pelos anos e o peso dos fardos bons ou ruins.

(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)

O que te posso dar é mais que tudo o que perdi: dou-te os meus ganhos.

A maturidade que consegue rir quando em outros tempos choraria, busca te agradar quando antigamente quereria apenas ser amada.

Posso dar-te muito mais do que beleza e juventude agora: esses dourados anos me ensinaram a amar melhor, com mais paciência e não menos ardor, a entender-te se precisas, a aguardar-te quando vais, a dar-te regaço de amante e colo de amiga, e sobretudo força — que vem do aprendizado.

Isso posso te dar: um mar antigo e confiável cujas marés — mesmo se fogem — retornam, cujas correntes ocultas não levam destroços mas o sonho interminável das sereias. busca te agradar quando antigamente quereria

A maturidade que consegue rir quando em outros tempos choraria, apenas ser amada.

Do livro “Secreta Mirada”, Editora Mandarim – São Paulo, 1997, pág. 151. Lya Luft

EU SEI, MAS NÃO DEVIA…

“A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora, a tomar café correndo porque está atrasado.

A gente se acostuma a ler o jornal no ônibus porque não pode perder tempo na viagem, a comer sanduíches porque não tem tempo para almoçar.

A gente se acostuma a andar nas ruas e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios, a ligar a televisão e assistir comerciais.

A gente se acostuma a lutar para ganhar dinheiro, a ganhar menos do que precisa e a pagar mais do que as coisas valem.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não a das janelas ao redor.

A gente se acostuma a não abrir de todo as cortinas, e a medida que se acostuma, esquece o sol, o ar, a amplidão.

A gente se acostuma à poluição, à luz artificial de ligeiro tremor, ao choque que os olhos levam com a luz natural.

A gente se acostuma às bactérias da água potável, à morte lenta dos rios, à contaminação da água do mar.

A gente se acostuma à violência, e aceitando a violência, que haja número para os mortos. E, aceitando os números, aceita não haver a paz.

A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza para preservar a pele.

A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que de tanto se acostumar, se perde por si mesma.

A gente se acostuma, eu sei, mas não devia.”- By Marina Colasanti

CAMINHOS…

Uma das lições mais difíceis de se aprender nessa jornada é a questão da aceitação. A gente traça um roteiro próprio, estabelece metas, acrescenta vontades, junta uma grande dose de sentimentos e espera que tudo corra conforme o combinado. Criamos expectativas em cima de pessoas tão diferentes de nós, querendo que elas sigam o script, ou que, pelo menos, obedeçam nosso combinado. Se somos tigres ferozes, nos indignamos com a serenidade dos coalas. Se temos a agilidade do beija flor, nos impacientamos com a lentidão dos caracóis. E de repente você percebe que está numa batalha que nem escolheu estar, tentando se defender de quem julga lhe conhecer melhor que você. Portanto, mesmo que discorde ou acredite conhecer aqueles que ama, entenda que jamais o saberá por completo, pois cada um carrega muito mais bagagem do que supomos desvendar.

Extraído do texto “CAMINHOS

By Fabiola Simões

DESEJOS…

Deseje saúde, mas não fique refém da musculatura estirada e hipertrofiada. Deseje liberdade, mas não imagine que ela está no fim de uma estrada íngreme e cheia de curvas. Tenha fé e respeite o sagrado que há em você, mas não julgue nem discrimine outras formas de espiritualidade. Estude, aprenda, pratique, mas não se fixe num boletim repleto de notas máximas. Deseje um bom emprego, com um salário digno, mas não abra mão dos seus ganhos pessoais em função dos rendimentos profissionais. Não seja avarento, consuma com moderação e jamais desperdice. Ame e permita ser amado por alguém, mas não espere ser retribuído na mesma proporção ou com os mesmos gestos. Tolere as diferenças e tenha paciência com as demoras.

Extraído do texto “NOVE ANOS

By Fabiola Simões

PASSADO…

Todo mundo sabe que não adianta “chorar sobre o leite derramado”, e que “vão-se os anéis, mas ficam-se os dedos…”, mas mesmo assim não é simples aceitar que coisas, pessoas, relacionamentos, histórias, lugares, momentos…ou o que quer que seja, se vá.

A gente teima em se fixar no que passou, no buraco que ficou, no vazio que deixou, na parte de nós que ainda está naquele lugar que não existe mais.

Tanta louça brilhando na cristaleira e só queremos juntar os cacos daquela que espatifou…

Extraído do texto “ÁGUA QUE FLUI, ÁGUA QUE CAI

By Fabiola Simões

COISAS INEXPLICÁVEIS…

Algumas coisas são inexplicáveis pra quem está de fora. Existem códigos secretos que só pertencem aos que partilharam a mesma mesa, o mesmo quarto, as mesmas brincadeiras, os mesmos pais. Talvez cumplicidade e camaradagem sejam as palavras certas pra definir esse tipo de amor, que começa com um “não me entrega que eu também não te entrego”, e segue vida afora compreendendo os traumas ocultos, as dores disfarçadas, a raiva acumulada, a alegria infantil, a inércia justificada. Mesmo longe, as mãos se reconhecem e se apoiam. Mesmo sem palavras, o entendimento é real. E no fim das contas, é aquele olhar cúmplice (“não me dedura por favor…”) que nos levanta e aquece. É aquele olhar que justifica e valida a beleza da vida, do mundo, das pessoas. E, de alguma forma que não sei dizer, traz alívio e paz.

Extraído do texto “GET LUCKY

By Fabiola Simões

GENTE…

Gosto de gente sem agrotóxico. Que não tem vergonha de sua casca “mais ou menos” e se perdoa pelas pragas. Que não tem medo de expôr suas fragilidades do mesmo modo que se vangloria de suas virtudes.

Gente que não se infla para parecer maior do que é.
Gente que se humaniza e se aproxima de mim.

Que não faz alarde de sua felicidade, mas valoriza o que vale a pena _ como a sombra de um Jatobá…

Extraído do texto “A FELICIDADE NA VITRINE

By Fabiola Simões

ESPERANÇA…

Então o que eu queria lhe desejar é esperança. Se não a mesma esperança que tínhamos lá atrás, quando algo não saía conforme o combinado e a gente acreditava que ‘pra tudo dá-se um jeito’ ou que faríamos ‘diamantes de pedaços de vidro’; pelo menos o desejo de que saia ileso da descrença, da desilusão. Que não amargue suas convicções nem subtraia a delicadeza do olhar. Nem tudo caminha conforme o combinado, algumas tristezas e perdas são irremediáveis, mas o saldo é descobrirmos que a existência é cheia de ciclos e recomeços.

Extraído do texto “DIAMANTES DE PEDAÇOS DE VIDRO

By Fabiola Simões

MULHERAR…

“As mulheres costumam fazer muitas coisas juntas…
Não é raro vê-las em pares ou em grupo no cinema…fazendo compras… viajando… olhando vitrines… andando no parque…indo a shows… a exposições… almoçando… e tudo isso sem parar de conversar (mulher fala, não?!😅)…

Romances… relacionamentos… rompimentos… perdas… filhos… profissão… roupas… menstruação… tpm… menopausa… exercícios… sexo etc… assunto é que não falta…
Uma grande amiga minha chama de “sair para mulherar” essas tantas atividades que fazemos juntas enquanto… ao mesmo tempo… vamos falando da vida…

As mulheres trocam confidências… expõem aquilo que vivem e seus conflitos… bordam e tricotam (literal e metaforicamente)…brigam… acompanham e cuidam umas das outras… numa troca recíproca e coletiva…
Nas muitas atividades em companhia das amigas… aparentemente tão triviais… fios da subjetividade de cada uma de nós se entretecem e nos ajudam a virar mulher… a ser mãe… a ser amiga… a casar…a ter filhos… a descasar… a trabalhar… a enfrentar a saída dos filhos de casa… a voltar a namorar… a passar pela menopausa… a envelhecer…a fazer os lutos e tantas outras coisas…
A vida seria muito mais dura se não fossem pelas irmãs-amigas… amigas- irmãs… com as quais podemos falar e elaborar tanto as dores como as delícias que vamos experimentando ao longo da estrada…

“Mulherar” ajuda a fabricar tecido psíquico… um tecido que vai sendo bordado coletivamente… criando novos desenhos e novas formas de pensar e dar sentido às nossas vivências e à nossa história.”

Sentindo falta de “mulherar” 🥰”

By Helena Albuquerque, psicanalista, mestre da USP

FAMÍLIA…

Trechos do livro “O Arroz de Palma”, de Francisco Azevedo.

“Família é prato difícil de preparar.
São muitos ingredientes.
Reunir todos é um problema…
Não é para qualquer um.
Os truques, os segredos, o imprevisível.
Às vezes, dá até vontade de desistir…
Mas a vida… sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite.
O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares.
Súbito, feito milagre, a família está servida.
Fulana sai a mais inteligente de todas.
Beltrano veio no ponto; é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade.
Sicrano, quem diria?
Solou, endureceu, murchou antes do tempo.
Este é o mais gordo, generoso, farto, abundante.
Aquele, o que surpreendeu e foi morar longe.
Ela, a mais apaixonada.
A outra, a mais consistente…
Já estão aí? Todos? Ótimo!
Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados.
Logo, logo, você também estará cheirando a alho e cebola.
Não se envergonhe de chorar.
Família é prato que emociona.
E a gente chora mesmo.
De alegria, de raiva ou de tristeza.
Primeiro cuidado:
temperos exóticos alteram o sabor do parentesco.
Mas, se misturados com delicadeza, estas especiarias, que quase sempre vêm da África e do Oriente e nos parecem estranhas ao paladar, tornam a família muito mais colorida, interessante e saborosa.
Atenção, também, com os pesos e as medidas.
Uma pitada a mais disso ou daquilo e, pronto:
é um verdadeiro desastre.
Família é prato extremamente sensível.
Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido.
Outra coisa:
é preciso ter boa mão, ser profissional.
Principalmente na hora que se decide meter a colher.
Saber meter a colher é verdadeira arte.
Às vezes, o ídolo da família, o bonzinho, o bola cheia que sempre ajudou, azedou a comida só porque meteu a colher.
O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita.
Bobagem!
Tudo ilusão!
Família é afinidade, é à Moda da Casa.
E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito.
Há famílias doces.
Outras, meio amargas.
Outras apimentadíssimas.
Há também as que não têm gosto de nada. Seria assim, um tipo de Família Dieta, que você suporta só para manter a linha.
Seja como for,
família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo.
Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir.
Enfim, receita de família não se copia, se inventa.
A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia a dia.
A gente cata um registro ali, de alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou no pedaço de papel.
Muita coisa se perde na lembrança.
O que este veterano cozinheiro pode dizer é que, por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer.
Se puder saborear, saboreie.
Não ligue para etiquetas.
Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro.
Aproveite ao máximo.
Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete!

Família:
Feliz quem tem, sabe curtir, aproveitar e valorizar!!!