Não sou feita desse ferro que não se desgasta! Não tenho as garras afiadas de uma fera, nem respiro fogo como um dragão. Sou esta mulher que já engoliu muitos sapos e que tantas vezes virou as costas à realidade. Sofri para não magoar, curei dores que não me pertenciam e esqueci-me tratar os meus males. Cresci ao som das tristezas e os sonhos para mim foram companheiros de lágrimas, que me habituei a educar. Fiz desse mar de lágrimas o mar revolto onde por vezes soube navegar! A vida nem sempre me deu doces, mas demasiadas vezes me presenteou com limões amargos. Por isso, eu aprendi a sofrer e fui bebendo desse veneno que não me conseguiu derrubar. Não sou forte o tempo todo, sou mais frágil do que pensam. Sou feitas de todas estas fragilidades, desses retalhos que fui costurando durante toda a vida, para resistir ao frio da tempestade que soprou, mas nem assim me derrotou. Eu não sou forte, mas a fragilidade de existir fez de mim uma guerreira.”
Recebi este texto (de autoria desconhecida) em um grupo que frequento da terceira idade. Me trouxe muitas reflexões, quis compartilhar pra vcs. Leiam:
Antigamente na escola havia os: “burros”… “gordos”… “quatro olhos ou caixa de óculos”… “sem sal”… “pretos”… “japonêses”… “indianos”… “artolas”… “maricas”… etc. Os “burros” chumbavam! Não se tornavam doutores como hoje em dia. Mas a fasquia era definida pelo marrão da turma! Não era nivelada por baixo como agora. Somos todos iguais… diz-se! Antes não parecia que fossemos! Mas o “gordo” também tinha notas brutais e ninguém sabia como! Talvez porque não jogasse à bola! O “quatro olhos” tinha um sentido de humor inigualável, mas não fazia corridas pois tinha medo de cair! O “preto” jogava à bola como ninguém e fazia uns dribles inimaginável! Tinha um físico fora do comum! O “japonês” tinha vindo de outra escola, sabia muito o inglês e tinha histórias que não lembravam a de ninguém. Cada um tinha um «defeito», até um apelido… uma alcunha! Mas tinha ou lutava por ter também outras qualidades. Hoje não. Dizem que somos todos iguais. Agora, tudo ou é bullying… ou racismo… ou xenofobia… ou opressão… ou assédio… ou violência!
Antigamente, quando se era mesmo racista, levava-se um “chapadão” na tromba e aprendia-se logo que o “preto” era como nós outros! Apenas tinha cor diferente. E não era bullying!… Era “aprendizagem on job”. Aprender assim era duro pois doía e não se esquecia mais. E às vezes em casa com os pais também, se “aprendia”… e como. O exemplo era seguido. O menino ou menina “sem sal” passava despercebido(a) e sentia-se sozinho(a). Ter uma “alcunha” (apelido) diferente era de praxe. Muito comum… A diferença era vista com bons olhos. E aprendia-se algumas coisas importantes: 🤔 Rirmos de nós próprios. E não “chorarmos” porque alguém nos chamou isto ou aquilo. Assumia-se a gordura… o “esquelético”… o “quatro olhos”… e tudo o mais que viesse. Mas quando não se estava bem, quando não se gostava do apelido, fazia-se uma coisa importante:
🤩mudava-se, lutava-se por acabar com ela. Não se culpava os outros nem a sociedade.
🥺Não se faziam “queixinhas”! E falhava-se … Muitas vezes! Mas cada vez que se falhava ficava-se mais forte. E sabíamos que era assim. Que havia uns que conseguiam, outros ficavam para trás, que havia quem vencia e quem falhava.
Agora não… Todos somos iguais, há mesmo a chamada igualdade de gênero! Todos somos bons… todos merecemos… todos temos as mesmas oportunidades… todos devemos até ganhar o mesmo… todos somos vítimas… todos somos oprimidos… e todos somos parvos… porque aceitamos este ambiente do “politicamente correcto” sem dizer nada….. e até devemos dizer que somos “normais”.
Segundo o novo paradigma social, devem ter muito cuidado comigo, porque:
🙄 Sou velho ou quase… tenho mais de 50 anos… e quando chegar à aposentadoria, se chegar a tê-la, o que vai fazer de mim um tolo… improdutivo… que gasta estupidamente os recursos do Estado;
🤔 Nasci branco, o que me torna um racista;
🤔 Não voto na esquerda radical, o que me torna fascista;
🤔 Sou hetero, o que me torna um homofóbico;
🤔 Possuo casa própria, o que me torna um proprietário rico (ou talvez mesmo um latifundiário);
🤔 Gosto de cordeiro de leite, … o que me torna um abusador de animais;
🤔 Sou cristão e, embora não praticante, sou um infiel aos olhos de milhões de muçulmanos;
🤔 Não concordo com tudo o que o Governo faz, o que me torna um reaccionário;
🤔 Gosto de ver mulheres bonitas bem vestidas (ou despidas), ou super decotadas, o que me torna um tipo capaz de assediar;
🤔 Valorizo a minha identidade brasileira, de descendência portuguesa e a minha cultura europeia e ocidental, o que me torna um xenófobo;
🤔 Gostaria de viver em segurança e ver os infractores na prisão, o que me torna um desrespeitador dos direitos “fundamentais” protegidos;
🤔 Conduzo um carro a gasolina, a diesel, o que me torna um poluidor, contribuindo para o aumento de CO2;
Apesar de estes defeitos todos, acho que ainda sou feliz… era mais antes da pandemia… mas mesmo assim… considero-me um gente boa e muito feliz.
Aquele que envelhece e que segue atentamente esse processo poderá observar como, apesar de as forças falharem e as potencialidades deixarem de ser as que eram, a vida pode, até bastante tarde, ano após ano e até ao fim, ainda ser capaz de aumentar e multiplicar a interminável rede das suas relações e interdependências e como, desde que a memória se mantenha desperta, nada daquilo que é transitório e já se passou se perde.
Hermann Hesse, in ‘Elogio da Velhice’ (Alemanha 2/ Jul/ 1877 – 9/ Ago/ 1962 )
Este texto sobre o envelhecer eu gosto muito. Tenho sessenta anos. Não te iludas: não estou ainda bastante fraco para ceder às imaginações do medo, quase tão absurdas como as da esperança e seguramente muito mais penosas. Se fosse preciso enganar-me a mim mesmo, preferia que fosse no sentido da confiança; não perderia mais com isso e sofreria menos. Este fim tão próximo não é necessariamente imediato; deito-me ainda, todas as noites, com a esperança de chegar à manhã seguinte. Adentro dos limites intransponíveis de que te falei há pouco, posso defender a minha posição passo a passo e recuperar mesmo algumas polegadas do terreno perdido. Não deixo por isso de ter chegado à idade em que a vida se torna, para cada homem, uma derrota aceite. Dizer que os meus dias estão contados não significa nada; sempre assim foi; é assim para todos nós. Mas a incerteza do lugar, do tempo e do modo, que nos impede de distinguir bem o fim para o qual avançamos sem cessar, diminui para mim à medida que a minha doença mortal progride. Qualquer pessoa pode morrer de um momento para o outro, mas o doente sabe que passados dez anos já não será vivo.
A minha margem de hesitação já não se alonga em anos, mas em meses. As minhas probabilidades de acabar com uma punhalada no coração ou por uma queda de cavalo tornam-se cada vez menores; a peste parece improvável, a lepra ou o cancro afiguram-se definitivamente afastados. Já não corro o risco de cair nas fronteiras, atingido por um machado helénico ou trespassado por uma flecha parta; as tempestades não souberam aproveitar as ocasiões que se lhes ofereceram, e o feiticeiro que me predisse que eu não me afogaria parece ter acertado. Morrerei em Tíbure, em Roma ou em Nápoles quando muito, e uma crise de sufocação encarregar-se-á da tarefa. Serei levado pela décima ou pela centésima crise? É essa a única questão. Assim como o viajante que navega entre as ilhas do Arquipélago vê despontar, ao entardecer, uma espécie de névoa luminosa e descobre pouco a pouco a linha da costa, eu começo a avistar o perfil da minha morte.
Certas fracções da minha vida assemelham-se já a salas desguarnecidas de um palácio demasiadamente vasto que um proprietário empobrecido renuncia a ocupar todo.
Marguerite Yourcenar (in ‘Memórias de Adriano’, França