OS VELHOS…

Gosto desta crônica de Carlos Drummond de Andrade. Leiam: Todos nasceram velhos, desconfio.

Em casas mais velhas que a velhice, em ruas que existiram sempre… sempre assim como estão hoje e não deixarão nunca de estar:

soturnas e paradas e indeléveis mesmo no desmoronar do Juízo Final.

Os mais velhos têm 100, 200 anos e lá se perde a conta.

Os mais novos dos novos, não menos de 50 — enorm’idade.

Nenhum olha para mim.

A velhice o proíbe. Quem autorizou existirem meninos neste largo municipal?

Quem infrigiu a lei da eternidade que não permite recomeçar a vida?

Ignoram-me. Não sou. Tenho vontade de ser também um velho desde sempre.

Assim conversarão comigo sobre coisas seladas em cofre de subentendidos a conversa infindável de monossílabos, resmungos, tosse conclusiva.

Nem me vêem passar. Não me dão confiança.

Confiança! Confiança!

Dádiva impensável

nos semblantes fechados,

nos felpudos redingotes,

nos chapéus autoritários,

nas barbas de milénios.

Sigo, seco e só, atravessando

a floresta de velhos.

Carlos Drummond de Andrade (in ‘Boitempo’, Ibira, Minhas Gerais 31/ outubro/ 1902 – Rio de Janeiro 17/agosto/ 1987 )

4 comentários sobre “OS VELHOS…

  1. Eu adoro literatura, Bia. Esse Drummond é maravilhoso…” lindo para ser lido nas entrelinhas”.
    Quando se fala da velhice, a gente não tem uma ideia do que possa ser, até porque é a nossa primeira vez que estamos envelhecendo. Se alguém nos perguntar, é provável que se dê qualquer resposta que é ” boa ou ruim”…só vamos acrescentar isso. Quem envelheceu, envelheceu a primeira vez assim como eu e você, cada um com a sua própria experiência. Juntos, eu você e todos vamos construindo o significado dessa evolução da vida…que não têm definição pronta, tem o desenrolar de um processo. Envelhecer é, antes de tudo, um modo particular (…) E o que acrescentar qualidades a isto, é o que de bom se faz.

    Marii.

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  2. BIA,

    tenho um presente para Você, um recado Geral, um riso em cada canto da boca – tudo isso pelo fato dos degraus da vida serem tantos e, muitas vezes, compreendidos de forma errônea (não é o nosso caso), das visões que naturalmente mudam. Viva eu, velhote serelepe ! Muito boas suas postagens acerca da velhice, com textos do moçambicano Mia Couto, e do Carlos Drummond.

    AQUI no UAÍMA: https://uaima.wordpress.com/2021/10/28/cas/

    Um abraço. Grato pela presença.
    Darlan

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