Não sou feita desse ferro que não se desgasta! Não tenho as garras afiadas de uma fera, nem respiro fogo como um dragão. Sou esta mulher que já engoliu muitos sapos e que tantas vezes virou as costas à realidade. Sofri para não magoar, curei dores que não me pertenciam e esqueci-me tratar os meus males. Cresci ao som das tristezas e os sonhos para mim foram companheiros de lágrimas, que me habituei a educar. Fiz desse mar de lágrimas o mar revolto onde por vezes soube navegar! A vida nem sempre me deu doces, mas demasiadas vezes me presenteou com limões amargos. Por isso, eu aprendi a sofrer e fui bebendo desse veneno que não me conseguiu derrubar. Não sou forte o tempo todo, sou mais frágil do que pensam. Sou feitas de todas estas fragilidades, desses retalhos que fui costurando durante toda a vida, para resistir ao frio da tempestade que soprou, mas nem assim me derrotou. Eu não sou forte, mas a fragilidade de existir fez de mim uma guerreira.”
Aquele que envelhece e que segue atentamente esse processo poderá observar como, apesar de as forças falharem e as potencialidades deixarem de ser as que eram, a vida pode, até bastante tarde, ano após ano e até ao fim, ainda ser capaz de aumentar e multiplicar a interminável rede das suas relações e interdependências e como, desde que a memória se mantenha desperta, nada daquilo que é transitório e já se passou se perde.
Hermann Hesse, in ‘Elogio da Velhice’ (Alemanha 2/ Jul/ 1877 – 9/ Ago/ 1962 )
Este texto sobre o envelhecer eu gosto muito. Tenho sessenta anos. Não te iludas: não estou ainda bastante fraco para ceder às imaginações do medo, quase tão absurdas como as da esperança e seguramente muito mais penosas. Se fosse preciso enganar-me a mim mesmo, preferia que fosse no sentido da confiança; não perderia mais com isso e sofreria menos. Este fim tão próximo não é necessariamente imediato; deito-me ainda, todas as noites, com a esperança de chegar à manhã seguinte. Adentro dos limites intransponíveis de que te falei há pouco, posso defender a minha posição passo a passo e recuperar mesmo algumas polegadas do terreno perdido. Não deixo por isso de ter chegado à idade em que a vida se torna, para cada homem, uma derrota aceite. Dizer que os meus dias estão contados não significa nada; sempre assim foi; é assim para todos nós. Mas a incerteza do lugar, do tempo e do modo, que nos impede de distinguir bem o fim para o qual avançamos sem cessar, diminui para mim à medida que a minha doença mortal progride. Qualquer pessoa pode morrer de um momento para o outro, mas o doente sabe que passados dez anos já não será vivo.
A minha margem de hesitação já não se alonga em anos, mas em meses. As minhas probabilidades de acabar com uma punhalada no coração ou por uma queda de cavalo tornam-se cada vez menores; a peste parece improvável, a lepra ou o cancro afiguram-se definitivamente afastados. Já não corro o risco de cair nas fronteiras, atingido por um machado helénico ou trespassado por uma flecha parta; as tempestades não souberam aproveitar as ocasiões que se lhes ofereceram, e o feiticeiro que me predisse que eu não me afogaria parece ter acertado. Morrerei em Tíbure, em Roma ou em Nápoles quando muito, e uma crise de sufocação encarregar-se-á da tarefa. Serei levado pela décima ou pela centésima crise? É essa a única questão. Assim como o viajante que navega entre as ilhas do Arquipélago vê despontar, ao entardecer, uma espécie de névoa luminosa e descobre pouco a pouco a linha da costa, eu começo a avistar o perfil da minha morte.
Certas fracções da minha vida assemelham-se já a salas desguarnecidas de um palácio demasiadamente vasto que um proprietário empobrecido renuncia a ocupar todo.
Marguerite Yourcenar (in ‘Memórias de Adriano’, França
Para chegar onde cheguei, tive que ser forte, aliás tive que aprender a ser forte e para isso passei grandes tempestades, engoli muita coisa, esqueci outras, passei por cima de tantas e tantas outras. Em determinados momentos me vi obrigada a construir meu próprio muro e ser a minha própria muralha. Se não bastasse, fui obrigada a andar de salto alto com todas as pedras que tinham meu caminho e ainda a driblar todas as outras que me foram aremessadas. Ensinei meus ouvidos a ouvirem somente aquilo que interessava e que fosse útil, ensinei minha boca a falar somente o necessário e quando fosse realmente necessário, meus pensamentos? Guardei, ocultei e escondi em um compartimento onde só eu e Deus temos acesso. Por isso caro (a) amigo (a) não me julgue e nem aremesse pedras, você não viveu o que eu vivi, você não passou o que eu passei, você não sabe o quanto eu tive que combater para chegar até aqui e nem mesmo sentiu na pele o que eu senti. Antes de você falar de mim, volte no tempo e faça a mesma estrada que eu fiz, ai sim, você terá condições de dizer algo a meu respeito. A vida é assim. Está sempre em movimento ⭐️ Recentemente comemorei meu aniversário. Gosto muito de brindar 🙏🏻 🙌🏻 😉 🥂 By Priscilla Rodighiero . .
Gostei muito deste texto de Gustavo Gitti, além da identificação me fez representada em eu olhar… e em sua escrita. Leiam:
Não…. Não há nada lá fora!!! Ao sair de casa, não saímos de nossas mentes: a cidade é inseparável do nosso mundo interno. Interno e externo se encontram… Desde que li “As Cidades Invisíveis”, obra-prima do escritor italiano Italo Calvino, tenho certeza de que nós não andamos por calçadas, linhas de metrô, casas e restaurantes. Percorremos mundos sutis. Para uma amiga, por exemplo, a Rua Maestro Cardim, em SP, nasceu quando sua filha ficou internada em um hospital ali. O local, antes ignorado, ganhou marcas negativas e depois virou a rua onde ela pratica meditação, no centro budista do outro lado, toda quinta. A maioria dos seres que passam por lá vê apenas mais uma rua, não aquela do silêncio. E quem cruza o shopping para meditar não entende bem qual o sentido de dedicar um templo tão grande ao consumismo. Nesse sentido, o shopping e a sala de meditação não estão exatamente na rua: eles estão em nosso mundo interno. Vê quem tem olhos. Se não reconhecemos os ambientes mentais surgindo coemergentes aos espaços urbanos, deixamos a cidade nos oprimir, especialmente hoje, habitando o que o antropólogo francês Marc Augé chama de “não-lugares”: aeroportos, rodovias, cadeias de hotéis, redes de fast-food, supermercados… Tais espaços desumanizados (não históricos, não identitários, não relacionais, indistintos em todos os cantos do planeta) são como um limbo: estamos suspensos, nem em casa nem no estrangeiro, nem sozinhos nem com outros. Neles, somos treinados a trombar com muita gente sem ver ninguém como pessoa. Precisamos circular, não podemos repousar,o que nos impede de tecer relações além da indiferença.
Porque nosso mundo se estreita, mais facilmente jogamos lixo naquilo que não sentimos como sendo nosso, mais isolados nos sentimos. Além de mudar as condições externas (políticas e arquitetônicas, por exemplo), um dos atos mais revolucionários é apenas andar consciente, sem tensão, sem tanta pressa, com o olhar aberto em 180 graus, respirando com consciência, olhando nos olhos de quem passa por você. Em vez de tratar seres humanos como obstáculos no metrô, você reconhece cada pessoa envolvida em seu próprio mundo. O cara no celular, a mulher sonolenta, o casal, os amigos com sacolas e mil expressões faciais… Todos buscando a mesma felicidade, todos sem saber como. Muito próximos e incrivelmente distantes, como se houvesse um pacto de não prestar atenção um no outro. O que aconteceria se todo mundo acordasse em um vagão de metrô, quebrasse a seriedade artificial e se olhasse de verdade? Como seria a vida urbana se iluminássemos nossas cidades invisíveis?
GUSTAVO GITTI trabalha com métodos de transformação pelo ritmo e pelo silêncio. Seu site é gustavogitti.com
Eu sempre acreditei que em meio as guerras Deus nos prepara e ensina, e isso eu já pude comprovar em diversas situações da minha vida. Não nascemos prontos, essa é a verdade, e a medida que crescemos, os nossos sonhos crescem junto com a gente, e as nossas batalhas aumentam também. Ao mesmo tempo que a vida nos surpreende, ela assusta, e os nossos passos em direção a tudo que almejamos de bom se tornam perturbadores aos ouvidos dos nossos adversários.
Viver está além de um abrir dos olhos pela manhã e desejar um bom dia a alguém, porque ninguém sabe das nossas lutas particulares, dos nossos compromissos, das nossas contas vencidas, nem tampouco do nosso esforço em se manter sempre firme diante das circunstancias que vez ou outra tentam nos derrubar emocionalmente. Uma das maravilhas que Deus me disse por esses dias foi: Filha, podem puxar o seu tapete, mas o seu chão ninguém tira. Podem te arrancar a força, mas a fé é algo que foi construído entre mim e ti e nisso ninguém pode tocar. O que eu quero que você entenda é que nada que a gente conquista vem de mãos beijadas para nós. Há suor, há choro, há oração, há quedas, há feridas, há uma história que merece ser respeitada e que se ficarmos tão apegados às coisas ruins que tentam nos parar não desfrutaremos do melhor que conquistamos.
Se continuarmos morando no passado, remoendo o mal que o outro nos fez, ou aquilo que não deu certo para nós por um erro que cometemos não alcançaremos o melhor que tanto almejamos. Se desapega do que aprisiona a sua alma, e se dê uma nova oportunidade de ser feliz. Perdoe, se perdoe, e faça a sua vida valer a pena sem carregar pesos desnecessários. Há muito que se construir, há muito que se conquistar. Se levante, e se dê uma chance de recomeçar.
Recordar-se não é o mesmo que lembrar-se; não são de maneira nenhuma idênticos. A gente pode muito bem lembrar-se de um evento, rememorá-lo com todos os pormenores, sem por isso dele ter a recordação. A memória não é mais do que uma condição transitória da recordação: ela permite ao vivido que se apresente para consagrar a recordação. Esta distinção torna-se manifesta ao exame das diversas idades da vida. O velho perde a memória, que geralmente é de todas as faculdades a primeira a desaparecer. No entanto, o velho tem algo de poeta; a imaginação popular vê no velho um profeta, animado pelo espírito divino. Mas a recordação é a sua melhor força, a consolação que os sustenta, porque lhe dá a visão distante, a visão de poeta. Ao invés, o moço possui a memória em alto grau, usa dela com facilidade, mas falta-lhe o mínimo dom de se recordar. Em vez de dizer: «aprendido na mocidade, conservado na velhice», poderíamos propor: «memória na mocidade, recordação na velhice». Os óculos dos velhos são graduados para ver ao perto; mas o moço que tem de usar óculos, usa-os para ver ao longe; porque lhe falta o poder da recordação, que tem por efeito afastar, distanciar.
A feliz recordação do velho é, como a feliz facilidade do moço, um gracioso dom da natureza, da natureza que protege com seus cuidados maternais as duas idades da vida que mais precisam de socorro, se bem que, em certo sentido, sejam também as mais favorecidas. Mas é por isso também que a recordação, tal como a memória, muitas vezes não passa de portadora dos dados mais acidentais.
Apesar de se distinguirem por grande diferença, a recordação e a memória são por vezes tomadas uma pela outra. A recordação é efectivamente idealidade, mas como tal, implica uma responsabilidade muito maior do que a memória, que é indiferente ao ideal.
A recordação tem por fim evitar as soluções de continuidade na vida humana e dar ao homem a certeza de que a sua passagem pela terra efectua uno tenore, num só traço, num soporo, e pode exprimir-se na unidade. Assim se liberta ela da necessidade em que a língua se encontra de repassar incessantemente pelas mesmas tagarelices, para reproduzir aquelas de que a vida se encontra repleta. A condição da imortalidade do homem é que a vida dele decorra uno tenore.
Completar 60, 70, 80 anos de idade, ou mais, e poder comemorar com a família e os amigos é um privilégio, uma bênção. Mas é, também, um bom momento para fazer uma retrospectiva da nossa vida: as conquistas e os fracassos; os sonhos realizados e os que ficaram pelo caminho, enfim, um momento para rever o que carregamos em nossa bagagem, além da família, dos amigos, da fé em Deus, em nós e na vida; além da es- perança, do amor e do desejo permanente de ser feliz.
Mas eis que, sem surpresa, porém um tanto apreensivos, nos damos conta de que a velhice chegou e que estamos deixando para trás a primavera da nossa existência, para dar lugar ao outono. Sem dúvida, nos vemos diante de novos desafios e de uma nova realidade. As limitações vão surgindo, é verdade, mas sentimos um desejo enorme de continuar produzindo e sonhando com outras possibilidades, mesmo que a curto prazo.
Envelhecer é uma das etapas da vida, e cada um chega de um modo pró- prio, de acordo com própria história de vida. Uns com mais saúde, outros com menos; uns com mais conforto e quali- dade de vida, outros com menos. Mas, é com esse cenário que vamos lidar com a velhice, usando nossas experiências, nossa criatividade e nos reiventando a cada dia. E aí, percebemos que vamos precisar, mais do que nunca, da família, dos amigos e da sociedade. É importante aceitar a velhice. Afinal, ter chegado até aqui é uma vitória. E nada contra sentar-se na cadeira de balanço, com uma agulha de tricô ou crochê, com um charuto ou cachimbo, com um bom livro, ou diante da tv para assistir àquele programa favorito. Ou deitar- se numa rede para cutucar a memória e ativar as boas lembranças. Mas isso, só depois de uma caminhada, da aula de dança, de pintura, de música, de culinária ou de natação. Ou mesmo, depois de uma visita a um amigo ou uma amiga, ou alguém da família, para um gostoso cafezinho e um papo agradável.
Pensando bem, envelhecer é uma aventura. “Somente os idiotas se lamentam de envelhecer”, escreveu o filósofo Caio Túlio Cícero. Ele dizia que o importante é encontrar o prazer que todas as idades proporcionam, pois todas têm suas virtudes. A velhice, por si só, não muda o temperamento, o comportamento ou o caráter de alguém. Mas pode ser um gatilho para aqueles que desejam mudar para melhor, na reta final de sua existência. E aí é que nos damos conta de que a vida é curta demais. E para terminar, caros leitores, ve- lhos, idosos, da terceira idade, seja lá como queiram ser chamados, vamos em frente, sem medo, sem preconceito, sem pessimismo e sem pressa; com leveza, tolerância, paciência, paixão e sabedoria. Vamos levar apenas o essencial, aquilo que, realmente, vale a pena. Não é fácil, porque a vida não é nada fácil. Mas o importante é tentar, sempre. Vamos sorrir para a vida, porque ela continua sorrindo para nós.