EU SOU 70+

Eu sou 70+

Brinquei na rua, inventei brincadeiras, aprendi a dividir espaço, negociar regras, esperar a minha vez, perder, ganhar, brigar, fazer as pazes e também a não ter tudo o que eu queria.

Cresci em um contexto que hoje seria reconhecido como de exclusão social. Aprendemos cedo convivência, autonomia, empatia, negociação e resiliência. A rua era quase uma continuação do quintal de casa.

Mas nem tudo merece ser romantizado. Bullying, apelidos cruéis e exclusão também faziam parte daquele tempo e muitas vezes eram tratados como algo normal.

Depois vieram o telefone de disco, a máquina de escrever, a fita cassete, o Walkman, o VHS, o CD, o fax, o iPod, a internet discada, os smartphones, a Internet das Coisas e a inteligência artificial.

E nós fomos aprendendo.

Eu mesma fiz duas faculdades, inúmeras formações, datilografia, informática, cabeleireiro, auxiliar de escritório e até culinária para executivos. Hobbies, curiosidade e necessidade de sobrevivência muitas vezes se misturavam.

Somos também a geração sanduíche: cuidamos dos pais, apoiamos filhos e netos, recomeçamos relações, viajamos sozinhos, aprendemos novos idiomas e reconstruímos a própria vida quando necessário.

Aprendemos que o aprendizado não termina.

E talvez por isso a geração 50+ esteja envelhecendo de outro modo.

Queremos participar, decidir, circular, produzir, conviver e escolher como viver.

Não aceitamos que envelhecer signifique desaparecer da vida social, ser esquecido dentro de casa ou ser tratado como alguém inevitavelmente passivo e dependente.

A revolução prateada já começou.

Moradia, cidades, saúde e serviços precisarão acompanhar uma geração que passou a vida inteira aprendendo a mudar e que agora também quer escolher como envelhecer.

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