
Outro dia ouvi e li este poema, senti que me tocou profundamente. Trouxe uma luz, sobre a vida. A minha vida… e todos que. Queria compartilhar com vocês com algumas reflexões minhas.
Neste poema podemos viver momentos tão diferentes quanto na vida. Refleti sobre tantas coisas…
Sobre a Vida…
Sobre a Fé…
Sobre os Caminhos…
Sobre os Desafios…
Sobre as (Re) Construções e/ ou;
Sobre o Amor…
Sobre a Resiliência…
Sobre os Sonhos…
Sobre a Coragem…
Sobre os Medos…
Sobre o se Reinventar…
Sobre o Seguir em Frente…
Sobre o Envelhecer!
Sobre Morrer!

Lembrou-me no poema…. a propósito dos dias que passamos, em que a indefinição do amanhã nos empurra para uma sensação de uma vida em suspenso. E como isto aconteceu muitas vezes! Em que nos pedem sacrifícios, atrás de sacrifícios para que consigamos, em sociedade, cruzar este mar revolto que descobrimos ser numa pandemia, ou nas guerras, ou nas injustiças ou nas escolhas difíceis. Onde cada dia, por ora, traz promessas de um final que se vai adiando, e adiando, fazendo aumentar os níveis de saturação e cansaço. Ninguém sabe!
É sobre essas promessas que versa o Ítaca, poema que narra a viagem de cada um de nós rumo à ilha prometida… nossos sonhos, propósitos e o que nos procura ensinar, em como desfrutar das deslocação.
Dia a dia, nas horas boas, ou outras nem tanto…
Este poema grego, com mais de 100 anos, de Constantino Kavafis (1863-1933), Ítaca (1910) ou Ítacas, dependendo da tradução.
Ítaca, assumindo a tradução de Jorge de Sena, é um poema que se passa no imaginário grego das epopeias… mas que com uma subliminaridade ímpar fala sobre a VIDA de cada um de nós — como essa queda constante que aqui é a viagem até Ítaca, traduzindo o nosso sentimento, num mar reviravolta durante, toda uma vida. Passo a passo!
“O poema ensina a cair
sobre os vários solos,
desde perder o chão
repentino sob os pés,
como se perde os sentidos
numa queda de amor,
ao encontro do cabo
onde a terra abate
e a fecunda
ausência excede.”

Uma multiplicidade de quedas que nos lembra que a vida não é mais do que isso mesmo, uma queda constante, a um ritmo que se quer equilibrado e com uma postura que se quer elegante, até ao momento final.
Num poema onde podemos viver momentos tão diferentes quanto na da nossa vida. Deu pra “relembrar” tantas coisas, a medida que ouvia.
Aprender a “cair” não significa que não sintamos a dor de cada queda, mas que lhe consigamos dar valor, como uma experiência de aprendizagem irrepetível. Afinal de contas, esta relação custo-benefício é comum em toda a experiência humana.
E quantas vezes uma certa dose de dor, ou de desconforto, não serve como marcador de uma situação de prazer? Aprender!!! Reaprender!!!
E… que nos ensinar a navegar por entre essa confusão de sentimentos. Ítaca, ao pontuar uma viagem que é de cada um com figuras épicas do imaginário grego, lembra-nos da nossa situação na História e, mais do que isso, de como a forma como encaramos a realidade acaba por definir a realidade em que vivemos. Aprender a cair não significa que não sintamos a dor de cada queda, mas que lhe consigamos dar valor como uma experiência de aprendizagem irrepetível.
Das dores de parto, às dores de estômago antes de um encontro romântico… das dores de esforço por algo que queremos de facto… às mazelas que ficam de um dia bem passado. A “dor” lembra-nos, invariavelmente, a sua ausência.
Poema, onde facilmente enxergamos a nossa vida como uma viagem no tempo entre dois pontos distintos. Ítaca, poema que narra a viagem de cada um rumo à ilha prometida, e que nos procura ensinar como desfrutar da deslocação.

Fazê-la atravessando momentos difíceis, cheio de dúvidas e incertezas, é como percorrer um caminho sinuoso ao largo de uma paisagem de cortar a respiração — a iminência do perigo faz disparar a adrenalina, aumentar a ansiedade, pode gerar medo ou pânico, mas é nessa imensidão de sentimentos que, por exemplo, um vale se agiganta à nossa contemplação. Quem não?
Pensei em estava onde tudo se encaixava, na hora e local exato de onde deveria estar. Que cada escolha que fiz, (ou desafio que surgia) teve uma consequência… e que aprendia com cada uma delas. Fortalecia-me e seguia em frente!
Seria tão belo um penhasco ou uma estrada sinuosa se a sua contemplação não fosse simultaneamente bela e vertiginosa.

Este poema Ítaca, recitado pelo ator Sean Connery – nesta versão legendada em portugês, aproveitem:
ITHACA (1910)
ÍTACA (1910)
Quando partires em viagem para Ítaca
faz votos para que seja longo o caminho,
pleno de aventuras, pleno de conhecimentos.
Os Lestrigões e os Ciclopes,
o feroz Poseidon, não os temas,
tais seres em teu caminho jamais encontrarás,
se teu pensamento é elevado, se rara
emoção aflora teu espírito e teu corpo.
Os Lestrigões e os Ciclopes,
o irascível Poseidon, não os encontrarás,
se não os levas em tua alma,
se tua alma não os ergue diante de ti.
Faz votos de que seja longo o caminho.
Que numerosas sejam as manhãs estivais,
nas quais, com que prazer, com que alegria,
entrarás em portos vistos pela primeira vez;
para em mercados fenícios
e adquire as belas mercadorias,
nácares e corais, âmbares e ébanos
e perfumes voluptuosos de toda espécie,
e a maior quantidade possível de voluptuosos perfumes;
vai a numerosas cidades egípcias,
aprende, aprende sem cessar dos instruídos.
Guarda sempre Ítaca em teu pensamento.
É teu destino aí chegar.
Mas não apresses absolutamente tua viagem.
É melhor que dure muitos anos
e que, já velho, ancores na ilha,
rico com tudo que ganhaste no caminho,
sem esperar que Ítaca te dê riqueza.
Ítaca deu-te a bela viagem.
Sem ela não te porias a caminho.
Nada mais tem a dar-te.
Embora a encontres pobre, Ítaca não te enganou.
Sábio assim como te tornaste, com tanta experiência,
já deves ter compreendido o que significam as Ítaca.
By: Konstantinos Kaváfis (1863-1933)
(Tradução: Isis Borges B. da Fonseca: Poemas de Konstantinos Kaváfis, São Paulo, Odysseus, 2006, p. 100-3)
Ilha de Ítaca, na Grécia, destino na Odisseia de Homero.
